Novo protocolo ajuda a prever dano por traumatismo craniano
Todos os anos são registrados no mundo mais de 20 milhões de novos casos de Traumatismo Cranioencefálico (TCE). Nesse cenário, a piora neurológica – situação em que o cérebro começa a se deteriorar após o traumatismo inicial – é a possibilidade mais preocupante. Atualmente, o diagnóstico da deterioração neurológica, na maioria dos serviços, ainda depende de critérios que acabam identificando o problema tardiamente, depois que ele já está instaurado, com risco de danos irreversíveis para o paciente.
Diante disso, um grupo de especialistas se reuniu para discutir como mudar esse cenário. O resultado foi o primeiro consenso latino-americano dedicado a redefinir e estratificar o conceito de deterioração neurológica após o TCE. As recomendações foram publicadas em maio de 2026 na Neurosurgical Review, revista de referência internacional editada pela Springer Nature, sob o título Neuroworsening in traumatic brain injury: A consensus of the Latin American Brain Injury Consortium (LABIC) and the Latin American Federation of Neurosurgical Societies (FLANC) expert group.
Entre os autores, Daniel Godoy, neurointensivista argentino, vice-presidente do LABIC; Robson Amorim, neurocirurgião brasileiro da Universidade Federal do Amazonas (UFAM); coordenador do Capítulo de Trauma e Cuidados Intensivos da FLANC; e Andrés M. Rubiano, neurocirurgião e intensivista colombiano e presidente da Fundação Global Neuro, da Suíça.

De uma abordagem reativa para uma abordagem proativa
A proposta central do consenso é passar de uma abordagem reativa para uma proativa, capaz de detectar sinais precoces de deterioração antes que o dano neurológico se instale. Um dos principais avanços práticos do consenso foi criar uma classificação estruturada desses pacientes em três níveis de alerta. “Isso é importante porque, com base nesses parâmetros, o médico pode agir de forma precoce e personalizada”, explica Amorim.
Os níveis de alerta recomendados pelo consenso são:
- Piora ou deterioração neurológica estabelecida: detectada pelos critérios tradicionais, como a redução da escala de Glasgow, alterações das pupilas e na tomografia.
- Piora ou deterioração neurológica subclínica: identificada por pelo menos dois parâmetros alterados em ferramentas modernas de neuromonitoração, antes de qualquer sinal clínico ou de imagem.
- Alto risco: pacientes com condições preexistentes mais vulneráveis à deterioração após o traumatismo, como hipertensão intracraniana idiopática, distúrbios de coagulação, apneia do sono grave ou sequelas de acidente vascular cerebral.
Rubiano destaca que a atualização marca um antes e um depois no processo de diagnóstico e tratamento dos pacientes com traumatismo craniano. “A nova estratégia proposta no consenso rompe com o antigo conceito de esperar o cérebro ficar muito lesionado para intervir. Esse preceito antigo gerava maiores chances de desfecho desfavorável, incluindo mais incapacidade residual e mais mortalidade nas vítimas de trauma craniano”, diz.
Ferramentas não invasivas de diagnóstico
Paralelamente, o consenso incorpora, pela primeira vez de modo sistematizado, ferramentas não invasivas ao diagnóstico da deterioração neurológica subclínica, cada uma com sua função:
- Ultrassonografia da bainha do nervo óptico – permite a triagem de hipertensão intracraniana.
- Doppler transcraniano – avalia a velocidade do fluxo sanguíneo cerebral em tempo real.
- Pupilometria quantitativa – oferece aferições objetivas das reações pupilares, eliminando a subjetividade da avaliação clínica tradicional.
- Monitoramento não invasivo da dinâmica intracraniana (método brain4care) – permite identificar alterações precoces na dinâmica da pressão intracraniana.
“A inclusão dessas ferramentas é especialmente relevante para contextos de recursos limitados. Desenhamos o consenso para que seja aplicável não apenas em grandes centros, mas em qualquer serviço que atenda vítimas de TCE na América Latina e no mundo”, afirma Godoy. Rubiano reforça essa visão a partir de sua experiência global com o neurotrauma: “Falta maior compreensão e educação sobre o tema por parte dos potenciais usuários dessas ferramentas e de quem se encarrega de fornecer essas tecnologias aos serviços de saúde. Os sistemas são muito fáceis de usar, os custos não são altos, e o mais importante é entender muito bem as condições de seu uso para uma implementação adequada.”
Metodologia padrão internacional
O processo de elaboração do consenso seguiu a metodologia Delphi, padrão internacional para a construção de consensos científicos. Foram elaboradas afirmações sobre a definição e os critérios diagnósticos da deterioração neurológica, submetidas a votação anônima. Para ser validada, cada afirmação deveria alcançar pelo menos 80% de concordância entre os especialistas. “Na primeira rodada de votação, a taxa de resposta foi de 95,2% e 100% das afirmações submetidas, alcançando o limiar de consenso, um resultado pouco usual em processos desse tipo”, informa Amorim.
Godoy destaca que os próximos passos incluem a validação das definições em estudos prospectivos de grande escala, além da exploração de modelos de inteligência artificial e aprendizado de máquina capazes de identificar, desde a admissão do paciente, os perfis com maior risco de deterioração neurológica.
Impacto do consenso
Na visão dos pesquisadores, o principal impacto do consenso é levar a melhor informação disponível sobre o tema, com base na opinião especializada e livre de conflitos de interesse. Com isso, a comunidade de usuários e tomadores de decisão conseguirão compreender o efeito benéfico que essas tecnologias podem representar no desfecho dos pacientes, sempre associadas à intervenção cirúrgica precoce quando necessário. “Esses sistemas, em última análise, buscam diminuir a subjetividade na tomada de decisões precoces sobre intervenções médicas e cirúrgicas, agregando variáveis fisiológicas mais objetivas – por exemplo, a capacidade de tolerância do crânio às mudanças de pressão após um traumatismo – a um processo hoje muito dependente do exame clínico e da tomografia”, conclui Rubiano.
Consenso tem chancela do NeuroTraumaBrasil
O consenso conta com o apoio do NeuroTraumaBrasil, força-tarefa de neurocirurgiões dedicada à educação continuada, à atualização e à disseminação de conhecimento e protocolos para o manejo de vítimas de traumatismo cranioencefálico e raquimedular no país. O grupo é referência na área de neurotraumatologia e neurointensivismo e atua em conjunto com a Sociedade Brasileira de Neurocirurgia (SBN) e a Academia Brasileira de Neurocirurgia (ABNc). Atualmente, a entidade é presidida pelo neurocirurgião Ítalo Suriano.
Para Sâmia Yasin Wayhs, neurocirurgiã e neurointensivista do Hospital das Clínicas, membro do NeuroTraumaBrasil, o consenso chega para uniformizar e consolidar práticas que já vinham sendo adotadas em alguns centros de referência. “Esse consenso é importante para disseminar as atualidades da assistência moderna ao paciente neurológico grave. O grande desafio agora é levar essa informação e capacitação a todo o país, para que os benefícios não fiquem restritos aos grandes centros de referência”, afirma.
Da mesma opinião compartilha Suriano. Ele reforça o papel do grupo na disseminação dessas recomendações. Para o presidente do NeuroTraumaBrasil, consensos como este são fundamentais para levar ao dia a dia dos serviços de saúde brasileiros as melhores práticas e ampliar o acesso a um cuidado mais seguro para as vítimas de traumatismo cranioencefálico em todo o país.

