Mercado farmacêutico cresce, mas as pequenas farmácias fecham

Por Thiago André Oliveira Rocha

Entre fevereiro de 2025 e 2026, o Brasil inaugurou 8.280 farmácias, sendo 5.549 delas independentes, de acordo com dados da Close-Up International. Isso revela que o empreendedor brasileiro continua acreditando na farmácia de bairro como um caminho legítimo de prosperidade e geração de renda, mas o problema é que o restante do ecossistema parece não acompanhar essa mesma confiança.

Dados da IQVIA divulgados pela Febrafar revelam um cenário preocupante, em que, em todo o ano de 2025, foram fechadas 6.555 farmácias independentes contra 5.459 abertas, gerando um saldo negativo de 1.096 unidades. Desta forma, o número total de farmácias no Brasil, que havia alcançado 94.237 unidades no fim do último ano, caiu para 93.850 em fevereiro de 2026.

Não se trata apenas de uma estatística do setor do varejo. Esse dado indica que o Brasil está desmontando, silenciosamente, uma das maiores redes de acesso à saúde que construiu ao longo de décadas, e isso não é resultado da falta de demanda.

O consumo farmacêutico cresce, o mercado digital avança em ritmo acelerado e medicamentos, como Ozempic, Wegovy e Mounjaro se transformaram em uma das categorias mais lucrativas da indústria global. As grandes redes ampliaram seu faturamento, logística e presença digital, enquanto o espaço competitivo do pequeno varejista tem diminuído.

A disputa deixou de ser apenas no balcão

Hoje, a concorrência acontece no aplicativo, no algoritmo, na entrega em minutos e na capacidade de financiar estoque caro em um cenário de juros elevados. Enquanto grandes grupos operam ecossistemas completos de relacionamento e dados, milhares de farmácias independentes ainda sobrevivem com margens comprimidas e baixa capacidade de investimento.

O mercado de GLP-1, medicamentos para diabetes e emagrecimento, simboliza perfeitamente essa transformação. São produtos caros, que exigem capital de giro, logística segura e estrutura digital que a maioria das pequenas farmácias não consegue sustentar sozinha. O que poderia representar uma oportunidade histórica de crescimento acabou aprofundando a desigualdade competitiva do setor.

No entanto, já existe uma virada importante em curso, em que com a quebra da patente da semaglutida no Brasil e a chegada gradual dos genéricos e similares ao mercado, os preços tendem a cair e o acesso deve se ampliar significativamente nos próximos anos. Essa mudança pode representar um novo capítulo para o pequeno varejo farmacêutico, especialmente em regiões onde a farmácia de bairro continua sendo o principal ponto de orientação em saúde.

O paradoxo é justamente que a pequena farmácia ficou de fora da primeira onda de crescimento do GLP-1. Entretanto, isso ainda pode ser fundamental para massificar o acesso na próxima etapa do mercado, desde que consiga participar dela.

O associativismo mostra que há uma saída

Alguns movimentos, como o associativismo, já demonstram que existe outro caminho. Redes ligadas à Febrafar e à Fecofar, redes associativistas do varejo farmacêutico, vêm mostrando que pequenos varejistas conseguem ganhar competitividade quando compartilham tecnologia, inteligência de dados, negociação, capacitação e digitalização.

O setor também começa a entender que capacitação sozinha já não basta, embora iniciativas relevantes da indústria farmacêutica voltadas à formação e atualização profissional mereçam o devido reconhecimento.

O desafio agora é estrutural, criando uma infraestrutura de mercado para que o pequeno varejo continue existindo de forma competitiva. Isso passa por crédito, integração digital, acesso tecnológico e novos modelos de relacionamento entre indústria, distribuidores e farmácias independentes.

As pequenas farmácias também precisam encontrar novos modelos para permanecer competitivas. Estruturas como estoque digital e dropshipping farmacêutico podem permitir que o pequeno varejo venda medicamentos de alto custo sem precisar imobilizar grandes volumes de capital em estoque, mantendo o relacionamento e a orientação ao paciente enquanto a logística fica sob responsabilidade da indústria ou do distribuidor.

Além disso, plataformas B2B2C e marketplaces podem ampliar a presença digital das farmácias independentes, sem exigir investimentos elevados em tecnologia própria. Somado a isso, acesso a capacitação, inteligência de mercado e dados regionalizados pode ajudar o pequeno farmacêutico a tomar decisões mais estratégicas sobre mix de produtos, precificação e atendimento.

A regulação ainda opera em lógica analógica

Existe outro problema que o setor discute pouco, que é a regulação não ter acompanhado o comportamento do consumidor. A jornada de saúde do brasileiro mudou radicalmente nos últimos anos, por exemplo, hoje, o paciente vive conectado, utiliza aplicativos, pagamentos instantâneos, prescrições digitais e marketplaces em praticamente todos os setores da economia. Em contraste a isso, parte da regulamentação farmacêutica ainda opera sob uma lógica anterior à transformação digital.

A própria RDC 44 da Anvisa, principal norma sobre dispensação remota de medicamentos, foi criada em 2009 e ainda carrega referências incompatíveis com a realidade atual do consumo digital, incluindo a menção ao fax como um dos canais possíveis para solicitação remota de medicamentos.

Ou seja, em 2026, enquanto o consumidor brasileiro vive integrado a aplicativos, prescrições eletrônicas, marketplaces, Pix e rastreabilidade em tempo real, parte da regulação ainda opera sob uma lógica tecnológica dos anos 90.

Na prática, isso cria um ambiente em que grandes redes conseguem navegar com mais facilidade graças à sua estrutura jurídica, tecnológica e operacional, enquanto o pequeno varejo permanece limitado justamente quando o mercado mais exige integração digital.

O que está em jogo vai além do varejo

Quando uma farmácia independente fecha em uma grande capital, normalmente existe uma substituição. Já quando ela fecha em cidades menores, periferias ou regiões afastadas, muitas vezes, desaparece junto o acesso mais próximo à orientação farmacêutica.

O risco aqui é o Brasil caminhar para um modelo extremamente eficiente nas regiões mais rentáveis e ausente onde a saúde já é mais vulnerável. O pequeno varejo farmacêutico não deve ser tratado como nostalgia de mercado, mas como uma infraestrutura de saúde. A discussão dos próximos anos será decidir se o país quer apenas consolidar o varejo farmacêutico ou preservar a sua capilaridade de cuidado.


*Thiago André Oliveira Rocha é Diretor da Vertical de Pharma & Life Sciences da Plusoft.

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