87,64% dos pacientes com câncer de pulmão em São Paulo são diagnosticados tardiamente
Dados inéditos compilados pelo Radar do Câncer, plataforma do Instituto Oncoguia, revelam que 87,64% dos pacientes diagnosticados com câncer de pulmão em São Paulo nos últimos três anos iniciaram o tratamento já em estadiamento avançado (estágios 3 e 4).
Na prática médica, o estadiamento é a ferramenta utilizada para classificar a extensão e a gravidade do tumor no momento da confirmação do diagnóstico. Trata-se de um gargalo crítico na detecção precoce do câncer de pulmão. Enquanto nos estágios iniciais (1 e 2) a intervenção médica costuma ter finalidade curativa e maior probabilidade de êxito, o diagnóstico nos estágios 3 e 4 indica que a doença já atingiu proporções severas e/ou apresentou metástase, exigindo terapias mais complexas e reduzindo expressivamente os índices de cura.
Em todo o Brasil, a realidade do câncer de pulmão é alarmante: a média nacional de estadiamento avançado para este tipo de câncer é de 87% nos últimos três anos. Nesse cenário, São Paulo ocupa a 21ª posição no ranking do Radar do Câncer de diagnóstico tardio. Para se ter uma ideia, Rondônia ocupa a dura primeira colocação no país, com 98,97% dos diagnósticos em estágio avançado. Acre e Piauí vêm logo em seguida, empatados em segundo lugar com 97,56%.

Para a presidente e fundadora do Instituto Oncoguia, Luciana Holtz, por trás desses números preocupantes, há histórias reais de angústia e esperas prolongadas, provocadas por um sistema que falha com o paciente muito antes de ele conseguir pisar em um hospital para iniciar o tratamento.
“O diagnóstico tardio é o retrato doloroso de uma jornada que começou errada. Não estamos falando apenas de estatísticas, mas de vidas que perderam um tempo precioso. Precisamos treinar as equipes de saúde para pensar em câncer de pulmão desde os primeiros sintomas identificados. O tempo que a pessoa leva para realizar consultas e exames pode ser crucial para avançar de uma fase que seria curável para um quadro muito mais complexo. Já sabemos os caminhos, precisamos implementá-los”, afirma Luciana.
Jornada do paciente: para além do estadiamento
Além do atraso em descobrir a doença, os dados do Radar do Câncer revelam que o paciente com câncer de pulmão precisa passar por uma longa e exaustiva corrida contra o tempo. Depois de finalmente receber o resultado do diagnóstico, o paciente esbarra em barreiras da falta de acesso incluindo demora e até distância que testam seus limites físicos e emocionais.

O primeiro grande obstáculo é o tempo de espera. Embora a legislação federal (Lei nº 12.732/12, conhecida como Lei dos 60 dias) determine que o tratamento deve começar em até dois meses após o diagnóstico, a realidade é de descumprimento dessa Lei: em média, 35% dos pacientes com câncer de pulmão no estado aguardam mais de 60 dias entre a biópsia (assinatura do laudo) e o primeiro tratamento. Na prática, isso significa passar semanas com dores (psicológicas e em alguns casos, física), sabendo que a doença está progredindo sem tratamento.
O segundo desafio é a distância. Como a oferta de exames, diagnóstico e tratamentos é limitada em diversas regiões do país, a busca por tratamento exige que o paciente saia de perto de sua rede de apoio e de sua casa: 55,57% dos pacientes com câncer de pulmão em São Paulo precisaram viajar para outros municípios para conseguir assistência oncológica básica.
A combinação de diagnósticos tardios com entraves logísticos agrava o quadro do câncer de pulmão no estado, analisa a presidente do Instituto Oncoguia, Luciana Holtz.
“Para os pacientes com câncer de pulmão, onde quase todos estão em estágios avançados da doença, se deslocar para fora da sua cidade ou até do seu estado pode ter impacto muito grande, inclusive com sofrimento financeiro e emocional. Precisamos que o sistema de saúde olhe também para essas questões e dê acesso a cuidados em saúde de forma ágil, com qualidade e melhor distribuída no país.”

