ONA avança em novos padrões de acreditação em saúde digital no Brasil
O Instituto do Coração do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, InCor–HCFMUSP e o Núcleo de Telessaúde de Goiás, sediaram em março e abril, respectivamente, uma etapa decisiva para o avanço da saúde digital no país: a avaliação-teste voltada à validação dos requisitos de acreditação para o Manual de Acreditação de Saúde Digital: Telemedicina e Telessaúde, desenvolvidos pela Organização Nacional de Acreditação (ONA).
A proposta inicial buscou avaliar a aplicabilidade dos requisitos em dois cenários distintos: um ambiente de alta complexidade, no InCor, e outro de menor complexidade, no Núcleo de Telessaúde de Goiás. O objetivo foi validar a aplicação prática dos novos critérios, assegurando que os padrões estejam alinhados a uma assistência digital segura, eficiente e escalável, independente do cenário, contexto, porte e complexidade.
“A avaliação realizada no InCor representa um marco para a consolidação da saúde digital no Brasil, ao demonstrar que é possível estruturar telemedicina, telessaúde e soluções digitais com base em critérios robustos de qualidade, segurança e integração do cuidado”, ressalta o presidente da ONA, Fábio Leite Gastal.
A análise também marcou um momento estratégico de escuta e aprimoramento técnico entre especialistas e as instituições. Realizada em caráter experimental – sem efeito imediato de acreditação -, a etapa resultará a emissão de um relatório de desempenho, declaração de participação e indicação do nível alcançado, além do reconhecimento formal da instituição como participante do desenvolvimento do modelo.
“A iniciativa reafirma o protagonismo do InCor na transformação da saúde digital, ao converter inovação e conhecimento em soluções concretas que ampliam o acesso, qualificam a assistência e se disseminam de forma estruturada por todo o País, explica o diretor executivo do InCor, Fábio Kawamura.

Metodologia e abordagem integrada – A avaliação seguiu uma metodologia estruturada a partir de evidências, combinando análise de documentos e registros institucionais, observação direta da prática assistencial e entrevistas com equipes multiprofissionais. “Analisamos toda a integração no ecossistema de saúde, considerando desde a gestão de pessoas no ambiente digital até a jornada completa do paciente, incluindo assistência, tratamento e monitoramento remoto, além da infraestrutura tecnológica e da interoperabilidade entre sistemas”, pontua a gerente geral de Operações da ONA, Gilvane Lolato.
Protagonismo do InCor – Os resultados consolidam o papel do Instituto do Coração como referência na transformação digital da saúde no Brasil. Com elevada maturidade interdisciplinar e equipes altamente engajadas, o InCor vem ampliando, de forma consistente, o acesso da população a uma assistência de excelência por meio da telemedicina.
A instituição já contabiliza 25.700 atendimentos realizados em teleconsultas – entre janeiro de 2021 e março de 2026, com avanços expressivos em teleinterconsultas e teleconsultorias somando mais de 40 mil registros, fortalecendo a conexão entre especialistas e profissionais de diferentes regiões do país.
Paralelamente, o InCor investe de forma contínua em capacitações voltado para saúde digital, fortalecendo a formação de equipes mais qualificadas e promovendo a disseminação de boas práticas em saúde. Esse esforço já resultou na qualificação de mais de 38 mil profissionais em diferentes áreas, com impacto direto na melhoria da qualidade do cuidado prestado aos pacientes.
A Plataforma Nacional de Telemedicina para Teleorientação de Ato Cirúrgico (TAC), desenvolvida pelo InCor, já soma 95 cirurgias teleorientadas em diferentes regiões do país, consolidando-se como uma iniciativa inovadora na capacitação profissional e na ampliação do acesso a procedimentos cardiovasculares de alta complexidade. Criada em parceria com o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) e a Cisco Brasil, a solução conecta, em tempo real, especialistas do InCor a equipes médicas fora dos grandes centros, fortalecendo a formação técnica, a segurança assistencial e a capacidade resolutiva local. Desde 2022, a TAC vem sendo expandida e já apoiou procedimentos em estados como Paraíba, Maranhão e Minas Gerais, entre outros, com uso de videoconferência de alta resolução, câmeras inteligentes e dispositivos integrados por Internet das Coisas (IoT).
Nesse momento, o projeto avança também no processo de transferência de tecnologia, com a cessão de uso da plataforma para outras instituições, permitindo a disseminação estruturada do modelo desenvolvido pelo InCor e sua adaptação às diferentes realidades regionais. A incorporação reforça a telemedicina cirúrgica como estratégia para qualificar a assistência, disseminar conhecimento especializado e reduzir desigualdades regionais. Mais do que um avanço tecnológico, a TAC consolida um modelo de cuidado colaborativo, levando a expertise do InCor para apoiar equipes locais, acelerar a curva de aprendizado em cirurgias complexas e fortalecer uma rede nacional de conhecimento em benefício dos pacientes.
“O InCor assumiu desde o início e estabeleceu a saúde digital como um eixo estratégico para ampliar o acesso e, sobretudo, qualificar a assistência prestada. Ao longo dessa jornada, estruturamos um modelo assistencial consistente, que articula de forma integrada a prática clínica, o ensino e a inovação, permitindo a conexão entre especialistas de diferentes regiões do país com segurança, eficiência e capacidade resolutiva”, explica o Prof. Doutor Carlos Carvalho, diretor de Saúde Digital do HCFMUSP.
Segundo o Professor, a frente do projeto, mais do que incorporar novas tecnologias, o Instituto avança na construção de um ecossistema sustentável de cuidado, baseado em protocolos clínicos, governança e uso responsável dos dados. “Nosso foco está na formação de profissionais capacitados para atuar nesse novo contexto, com rigor técnico e responsabilidade clínica, assegurando que cada interação — seja assistencial, educacional ou consultiva — gere impacto direto na qualidade do cuidado ao paciente e contribua, de forma estruturante, para o fortalecimento do sistema de saúde”, esclarece.

Núcleo de Telessaúde de Goiás – A Telessaúde do Governo de Goiás vem consolidando um modelo inovador de cuidado, educação e apoio assistencial, ampliando o acesso da população aos serviços de saúde e fortalecendo a capacitação contínua dos profissionais em todas as regiões do estado. Entre 2015 e 2026, foram realizados 22.654 exames de teleretinografia e 80.850 atendimentos em telecardiologia, reforçando o diagnóstico especializado à distância e contribuindo para maior agilidade e resolutividade clínica. No campo da educação em saúde, a iniciativa também alcançou números expressivos, com 430.617 acessos a teleaulas gravadas e 384.944 participações em teleaulas ao vivo, demonstrando o impacto da tecnologia na democratização do conhecimento, na atualização das equipes e na integração da rede pública de saúde goiana.
“Nossa participação reforça o compromisso do Núcleo de Telessaúde de Goiás em levar excelência e segurança digital para além dos grandes centros. Ao testar esses requisitos em nossa realidade, demonstramos que padrões rigorosos de qualidade são aplicáveis e essenciais para democratizar o acesso à saúde especializada, tendo a atenção primária como foco”, afirma o neurooftalomologista e coordenador do Núcleo de Telemedicina e Telessaúde na Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Goiás, Alexandre Taleb.
Impacto para o setor e próximos passos – A validação contou com a participação de especialistas de referência, incluindo representantes do Ministério da Saúde, curadoria técnica especializada e avaliadores da ONA, além das lideranças e equipes assistenciais do Incor e Núcleo telessaúde Goiás. “O processo foi fundamental para os ajustes finais dos requisitos e para a proposta de novas diretrizes que irão nortear a acreditação em saúde digital no Brasil. Assim, consolidamos um modelo que prioriza o acesso seguro, a excelência e a incorporação de tecnologias inovadoras”, esclarece Péricles Góes da Cruz, superintendente técnico da ONA.
Acreditação na Telemedicina e Telessaúde – Este é o primeiro manual de acreditação em telemedicina e telessaúde 100% nacional, desenvolvido com rigor técnico alinhado a padrões internacionais, adaptado ao contexto brasileiro e em conformidade com os marcos éticos, legais e regulatórios vigentes.
O modelo está alinhado às diretrizes estratégicas de Saúde Digital do Ministério da Saúde e está sendo homologado por sete entidades representativas do setor: SEIDIGI/MS (Secretária de Informação e Saúde Digital/Ministério da Saúde); InovaHC; Saúde Digital HCFMUSP (Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo), ABTms (Associação Brasileira de Telemedicina e Telessaúde), SBIS (Sociedade Brasileira de Informática em Saúde); SDB (Saúde Digital Brasil), e ICOS (Instituto Coalizão Saúde).
Diferentemente de modelos internacionais, que nem sempre se adequam ao contexto do país, este manual foi concebido para atender às necessidades reais do sistema de saúde brasileiro, considerando as especificidades do SUS, da saúde suplementar e da organização federativa, e apoiando a construção de um ecossistema integrado, sustentável e escalável de Saúde Digital.
“Ir além da atenção primária é essencial e estratégico. A telemedicina e a telessaúde permitem ampliar o cuidado ao promover a integração dos diferentes níveis de atenção à saúde, fortalecer as linhas de cuidado e incorporar abordagens biopsicossociais. Envolvem também a integração com a RNDS (Rede Nacional de Dados em Saúde), o uso de inteligência artificial e a qualificação profissional permanente. Tudo isso conectando o SUS (Sistema Único de Saúde), a saúde suplementar e o setor privado”, destaca o médico Chao Lung Wen, chefe da Disciplina de Telemedicina do Departamento de Patologia da Faculdade de Medicina da USP e parceiro da ONA.
Segundo o especialista, mais do que um instrumento exclusivamente avaliativo ou um checklist técnico, este modelo de acreditação atua como indutor de transformação e se posiciona como uma ferramenta estratégica para as instituições. “Além de permitir avaliar o grau de maturidade organizacional no uso das tecnologias digitais, orientar a implementação de modelos sustentáveis de saúde digital e fortalecer a qualidade assistencial”, ressalta. E complementa: “Não estamos avaliando apenas a prática assistencial. Estamos incentivando o compromisso das instituições com a integração do cuidado, com as políticas públicas de saúde e com o fomento à pesquisa, desenvolvimento e inovação, contribuindo para a construção de um ecossistema sólido de Saúde Digital no Brasil rumo a 2030”, afirma.
Do isolamento ao acesso – A transformação digital da saúde no Brasil já ultrapassa os grandes centros urbanos e começa a mudar a realidade de populações historicamente desassistidas. Segundo dados do Ministério da Saúde e da Secretaria de Informação e Saúde Digital (SEIDIGI), entre 2025 e 2026, o SUS realizou 6,3 milhões de teleatendimentos alcançando 79% dos municípios brasileiros, 20 dos 34 Distritos Sanitários indígenas, 19 quilombos em todo o Brasil.
Um dos marcos dessa expansão foi a implantação da telessaúde no primeiro território quilombola atendido pelo SUS Digital, permitindo que moradores realizassem consultas sem a necessidade de longos deslocamentos para centros urbanos.
“O avanço da saúde digital no Brasil não se resume a números ou conectividade, trata-se de reduzir distâncias históricas. Ao levarmos a telessaúde para territórios quilombolas e regiões remotas, estamos garantindo que o princípio da equidade do SUS seja cumprido na era digital. O isolamento geográfico não pode mais ser uma barreira para o direito à saúde especializada e de qualidade”, afirma Ana Estela Haddad, secretária de Informação e Saúde Digital.
De acordo com o Ministério da Saúde, a estratégia faz parte do avanço da Política Nacional de Informação e Saúde Digital e do Componente SUS Digital e do Programa Agora Tem Especialistas, que prevê novos investimentos em infraestrutura tecnológica, entrega de kits de telessaúde e expansão da conectividade. Dados disponíveis no Relatório Anual de Gestão 2025 e no painel estratégico da Telessaúde reforçam que a expectativa para 2026 é de crescimento ainda mais acelerado da assistência digital em todo o país.

