Obesidade amplia demanda assistencial e pressiona a saúde suplementar
A obesidade se consolidou como um dos principais vetores de demanda assistencial crônica na saúde suplementar brasileira. Entre 2015 e 2024, a taxa total de eventos assistenciais relacionados à obesidade mais do que dobrou, passando de 40,7 para 84,5 eventos por 100 mil beneficiários, o que representa um crescimento acumulado de 108%. Os dados constam do novo estudo “Evolução dos registros de obesidade e da utilização de consultas nutricionais na saúde suplementar no Brasil”, produzido pelo Instituto de Estudos de Saúde Suplementar (IESS).
A análise mostra que o crescimento dos eventos assistenciais associados à obesidade ocorre de forma contínua ao longo da série histórica, com aceleração a partir de 2020, indicando que a condição deixou de ser um fenômeno periférico e pontual e passou a integrar de forma estrutural o perfil epidemiológico dos beneficiários de planos de saúde.
Na segmentação por sexo, entre as mulheres, a taxa de eventos relacionados à obesidade passou de aproximadamente 55 para 128 eventos por 100 mil beneficiárias entre 2015 e 2024, equivalendo a alta de 132%. Entre os homens, a taxa evoluiu de 24 para 36 eventos por 100 mil beneficiários, ou 47% de crescimento. Ao longo de toda a série, as taxas permanecem consistentemente mais elevadas entre mulheres.

A análise por faixa etária indica que, no agregado, a maior carga assistencial associada à obesidade recai sobre os adultos de 20 a 59 anos, grupo que também apresenta o crescimento mais expressivo das taxas ao longo do período. Crianças e adolescentes (0 a 19 anos) e idosos (60 anos ou mais) também registram aumento dos eventos, porém em patamares assistenciais inferiores. O estudo ressalta que essas diferenças refletem não apenas a distribuição da obesidade, mas também padrões de acesso aos serviços, diagnóstico, registro e organização da rede assistencial.
Fica também evidente o aumento da intensidade assistencial quando observados os eventos por prestador de serviço de saúde. A taxa por prestador cresceu de 9,2 para 14,7 eventos entre 2015 e 2024, um aumento acumulado de 60%. Novamente, esse crescimento é mais pronunciado entre mulheres e adultos em idade produtiva, enquanto crianças, adolescentes e idosos mantêm taxas por prestador mais baixas ao longo da série.
Paralelamente, foi registrada uma expansão expressiva da utilização de consultas ambulatoriais com nutricionistas. No agregado, as taxas de consultas por 100 mil beneficiários crescem de forma muito mais acelerada do que os eventos relacionados à obesidade, com trajetória ascendente desde 2016, recuperação rápida após a queda observada em 2020 e aceleração no período pós-pandemia. O trabalho destaca que a autorização regulatória para número ilimitado de consultas com nutricionistas na saúde suplementar, a partir de 2022, pode ter contribuído de forma relevante para esse movimento.
Na segmentação por sexo e faixa etária, as taxas de consultas nutricionais permanecem mais elevadas entre mulheres e adultos de 20 a 59 anos, embora todos os grupos etários apresentem crescimento expressivo ao longo da série. Nesse contexto, por um lado, foi constatado maior acesso e valorização do cuidado nutricional; por outro, tal comportamento reflete respostas fragmentadas e reativas ao avanço da obesidade, sem integração adequada de cuidado, com estratégias estruturadas de manejo no longo prazo.
Outro ponto de destaque está na incorporação dos agonistas do receptor de GLP-1 como uma virada farmacológica no manejo da obesidade. No agregado, os medicamentos demonstram eficácia relevante durante o uso, com reduções médias superiores a 10%–15% do peso corporal. Entretanto, há evidências robustas de retorno do peso corporal perdido durante o tratamento após a interrupção da terapia, frequentemente em ritmo acelerado, levando à volta do peso anterior em até dois anos.
Do ponto de vista dos sistemas de saúde suplementar, o uso prolongado de terapias farmacológicas de alto custo redefine padrões de gasto e amplia a pressão sobre a sinistralidade. A combinação entre maior prevalência de obesidade, aumento da utilização de serviços e incorporação de tecnologias de alto custo exige avaliações criteriosas de custo-efetividade, especialmente no longo prazo, além de estudos com seguimento mais prolongado para subsidiar decisões assistenciais e regulatórias.
O estudo conclui que intervenções isoladas — sejam nutricionais ou farmacológicas — apresentam eficácia limitada para a manutenção da perda de peso no longo prazo. Diante desse cenário, o IESS reforça a necessidade de modelos assistenciais integrados, multiprofissionais, contínuos e orientados por dados, capazes de articular prevenção, cuidado clínico, uso racional de medicamentos e monitoramento longitudinal de desfechos clínicos e assistenciais, como condição para enfrentar de forma sustentável a crescente demanda associada à obesidade na saúde suplementar.

