Número de biópsias realizadas caíram 45,72% na pandemia

A cada ano no Brasil, cerca de 700 mil pessoas recebem o diagnóstico de câncer e 225 mil morrem. Em situações normais, o país já possui uma das mais altas taxas de diagnósticos tardios de câncer no mundo e o problema só aumentou durante a pandemia. Essa é a conclusão de um levantamento feito pelo Instituto Oncoguia, associação sem fins lucrativos, que ajuda o paciente com câncer a viver melhor por meio de projetos e ações de informação de qualidade, educação em saúde, apoio e orientação ao paciente, defesa de direitos e advocacy.

“A pandemia afetou profundamente o cenário do câncer. No início, o medo tomou conta. Exames, tratamentos e consultas pré-agendados foram suspensos ou cancelados, tanto a pedido do paciente, como por medida de segurança adotada pelas instituições de saúde”, explica a fundadora do Instituto, Luciana Holtz. “Houve muito represamento. Aos poucos, o medo foi dando lugar à ansiedade e à angústia de não saber o tempo que se levaria para o fluxo de atendimento voltar ao normal”.

Quando comparado os meses de março a setembro de 2019 e 2020, houve redução de 45,72% no número de biópsias realizadas. No ano passado, elas eram mais de 500 mil, chegando a menos de 300 mil em 2020. Outros exames imprescindíveis no diagnóstico também apresentaram quedas vertiginosas. O exame citopatológico cervico-vaginal, que rastreia o câncer de colo de útero, teve queda de 61,58%; a colonoscopia, para câncer de reto, caiu 45,48%; a dosagem de antígeno prostático (PSA), para câncer de próstata caiu 44,77% (os dados estão no quadro abaixo).

Também houve queda na média de pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS) que iniciaram tratamento sistêmico para o câncer durante a pandemia. De janeiro a setembro de 2020, em relação ao mesmo período do ano passado, menos 37,3% de pacientes diagnosticados iniciaram tratamento contra câncer de próstata. A queda brusca se repete com outros tipos da doença: -33,4% para melanomas; -29,3% para câncer de mama e -28% para câncer de pulmão.

O Oncoguia reforça a importância da luta contra o tempo quando há chance de cura e maior sobrevida para o paciente. “No câncer de pulmão, por exemplo, quando a doença é identificada na fase inicial, a taxa de sobrevida relativa em cinco anos é de 61% para pacientes com câncer de não pequenas células, e de 27% para aqueles com câncer de pequenas células. Quando a doença é encontrada nas fases mais tardias, quando o tumor já se disseminou para outros órgãos, as taxas respectivamente caem para 6% e 3%”, principalmente sem acesso a um diagnostico preciso e tratamento efetivo, ressalta Luciana.

As internações por neoplasias também caíram 24,72%. “Os dados estão ai e são um importante alerta de que não podemos mais esperar para que os exames e diagnósticos sejam agilizados e priorizados e que mesmo diante de uma segunda onda, os tratamentos não sejam mais cancelados”, ressalta Luciana, que afirma que uma “epidemia” de casos avançados de câncer já vem sendo anunciada pelas sociedades e pelos estudos científicos paralelamente à iminente chegada de uma segunda onda da Covid-19.

O Instituto Oncoguia conclama aos órgãos sanitários para que se estabeleça imediatamente um Plano para Minimização dos Efeitos da Pandemia na Atenção Oncológica e produziu algumas propostas para enfrentar os principais problemas identificados na rede de atenção à saúde. Alguns dos órgãos já contatados são: Conass (Conselho Nacional de Secretários de Saúde), Conassems (Conselho Nacional de Secretarias municipais de Saúde) e INCA – Instituto Nacional de Câncer a fim de colaborar com a retomada.