Médico de Família: um especialista em gente

Por Emilio Puschmann

Quando cheguei ao Brasil, em 2011, me deparei com uma realidade muito diferente do que estava acostumado a ver no sistema de saúde. Na Alemanha e na Inglaterra, onde nasci e cresci, o acesso à saúde é todo organizado em torno da figura do médico de família e da Atenção Primária à Saúde (APS). No Brasil, a lógica da saúde privada era outra: ou as pessoas iam diretamente ao pronto socorro ou então escolhiam alguma especialidade diretamente no livrinho do convênio.

Essa realidade pode ser vista nos números. Segundo dados do Conselho Federal de Medicina (CFM), quatro especialidades médicas concentram quase 40% dos médicos brasileiros. Enquanto Clínica Médica, Pediatria, Cirurgia Geral e Ginecologia contam com mais de 30 mil profissionais registrados cada uma, a especialidade Medicina de Família e Comunidade tem pouco mais de 5 mil médicos, o que representa apenas 1,5% do total de médicos no país.

No fim, estamos pagando mais caro, gastando mais tempo com consultas e fazendo exames que em muitos casos são desnecessários. A Medicina de Família e Comunidade é essencial para a Atenção Primária à Saúde (APS), primeiro nível de contato com o sistema de saúde, que visa atender a população de modo preventivo, integrado e contínuo. Em média, 80% dos problemas podem ser solucionados sem a necessidade da consulta com um especialista. Isso não apenas reduz os gastos excessivos com consultas e exames, democratizando o acesso ao sistema de saúde, como também favorece melhores desfechos clínicos. Na Amparo Saúde, o médico de família é a figura central do atendimento às mais de 1,5 milhão de vidas sob o nosso cuidado.

No contexto da pandemia do novo coronavírus, o médico de família e a Atenção Primária à Saúde podem ajudar até mesmo a desafogar os serviços de urgência e emergência na pandemia. Em novembro, a Amparo Saúde constatou um aumento no número de confirmações de casos de Covid-19, mas aproximadamente 75% dos pacientes que se consultaram com suspeita de infecção pelo vírus tiveram o diagnóstico descartado, sem precisar ir a um pronto-socorro e se submeter a uma maior aglomeração. Muitas vezes, sem precisar sair de casa, com uma teleconsulta segura e eficiente.

Aproveito para lembrar que, em 5 de dezembro, foi celebrado o Dia Nacional do Médico de Família e Comunidade, mesma data em que foi fundada a Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade (SBMFC), em 1981. Dou os parabéns a estes importantes profissionais da medicina, que avaliam o histórico do paciente de forma integral, criam vínculos e acompanham as pessoas ao longo da vida inteira. Também reitero a importância de ter cada vez mais profissionais desta especialidade ajudando na prevenção, diagnóstico e cuidado da população brasileira.


*Emilio Puschmann é fundador e CEO da Amparo Saúde, healthtech pioneira em Atenção Primária à Saúde presencial e remota.