Março Amarelo e Endometriose: conscientização e estratégia
Por Sérgio Podgaec
O Março Amarelo, tradicionalmente dedicado à conscientização sobre a endometriose, precisa ser compreendido pelo setor saúde como uma pauta estratégica e não apenas assistencial. Estamos diante de uma condição crônica de alta prevalência, impacto socioeconômico relevante e grande complexidade diagnóstica e terapêutica. Esses três fatores, por si só, já a colocam no centro das discussões sobre gestão clínica, organização de linhas de cuidado e sustentabilidade dos sistemas de saúde.
Do ponto de vista da gestão, a endometriose expõe fragilidades estruturais ainda presentes no modelo assistencial brasileiro, como fragmentação do cuidado, demora diagnóstica, uso ineficiente de recursos e ausência de protocolos integrados. O atraso médio no diagnóstico, amplamente descrito na literatura internacional, gera peregrinação entre serviços, exames repetidos e intervenções pouco resolutivas. Esse ciclo pressiona custos e compromete desfechos clínicos.
Para gestores hospitalares, operadoras e líderes clínicos, o desafio está na construção de jornadas assistenciais estruturadas, com protocolos claros, definição de níveis de complexidade e incorporação racional de tecnologia. A adoção de centros de referência, a qualificação de equipes multiprofissionais e o uso de critérios objetivos para indicação cirúrgica são exemplos de boas práticas que reduzem variabilidade, aumentam previsibilidade de custos e melhoram indicadores de qualidade.
A cirurgia ginecológica minimamente invasiva, quando bem indicada e executada por equipes treinadas, demonstra impacto relevante na redução de tempo de internação, complicações e reinternações. Esses elementos dialogam diretamente com modelos de remuneração baseados em valor. Investir em capacitação técnica, certificação profissional e padronização assistencial não é apenas uma escolha acadêmica, mas uma decisão estratégica.
O Março Amarelo também cumpre papel importante na governança setorial ao estimular debate qualificado entre sociedade médica, gestores e formuladores de políticas públicas. A conscientização, quando bem estruturada, pode contribuir para planejamento de rede, definição de fluxos assistenciais e discussão sobre financiamento adequado de doenças crônicas femininas, historicamente subpriorizadas.
Mais do que campanhas pontuais, o que o Março Amarelo nos propõe é uma reflexão sobre modelo assistencial. A endometriose exige abordagem estruturada, integração entre níveis de atenção e compromisso com desfechos mensuráveis. Para os líderes do setor saúde, essa é uma oportunidade de revisar processos, fortalecer governança clínica e alinhar inovação tecnológica à sustentabilidade do sistema.
Conscientizar, nesse cenário, é também planejar, organizar e gerir melhor.
*Sérgio Podgaec é Presidente da SBE.

