Longevidade: uma conquista da medicina do estilo de vida

Por Julia Pinheiro

O Brasil se transformou num país longevo. Dentro desse século, ganhamos dez anos em expectativa de vida quando comparada à última década do século 20, chegando a 76,6 anos. As razões, de acordo com o Ministério da Saúde, incluem os avanços da ciência no combate a doenças e a melhor cobertura da vacinação, uma grande aliada na prevenção de doenças fatais.

Porém, a conquista que o Brasil e o mundo experimentam – afinal, a população global está vivendo mais, com expectativa média de 75 anos – impõem desafios maiores. A medicina e toda sorte de aliados que avançaram no combate às doenças agora têm de almejar por prática de cuidados da saúde humana que promova mais prevenção do que reparação frente a uma medicina tão reativa.

Estimular o debate em torno de modelo de cuidado que visa tirar as pessoas do pilar da doença para conduzi-las ao pilar da saúde é, sem dúvida, uma provocação que, para alguns, pode despertar ironia, pois demanda mudanças profundas na cultura de uma sociedade acostumada a adoecer. Para outros, apostar no valor da prevenção pode representar uma afronta, já que tratar de doenças movimenta indústrias bilionárias como a farmacêutica, que está entre as maiores do mundo, e os grandes centros médicos e hospitalares cada vez mais concentrados em grupos econômicos.

Meu convite é que olhemos para práticas disruptivas para que a nova sociedade longeva possa usufruir dos anos a mais com qualidade de vida. Viver mais requer reflexão profunda para não caminharmos, enquanto sociedade, como um exército de pessoas idosas, porém doentes. Precisamos evitar o futuro de super população de enfermos, à medida que a população 60+ deve representar o maior percentual da nossa sociedade até 2060.

Há muito o quer ser feito em prol da longevidade ativa e a boa notícia é que já dispomos de ferramentas e tecnologias para investirmos em mais vida com saúde. A Medicina do Estilo de Vida (MEV), por exemplo, é um movimento relativamente recente que começou em 2004, nos Estados Unidos, e desembarcou no Brasil em 2018. Suas práticas têm promovido um trabalho fundamental na prevenção e até na reversão de doenças crônicas como o diabetes, focando na mudança de hábitos do paciente por rotinas saudáveis.

Imaginemos que, se o infarto agudo do miocárdio e o câncer são, respectivamente, a primeira e a segunda causa de morte no Brasil, temos um imenso terreno de trabalho preventivo na saúde com enormes perspectivas de resultado em favor de vidas tanto mais longevas quanto mais saudáveis.

Isso já é possível e temos observado iniciativas que estão atraindo as pessoas mais atentas ao autocuidado da saúde como uma espécie de poupança a ser resgatada após os 60 anos. As chamadas doenças evitáveis demandam atenção na fase jovem e adulta, quando definimos por conta própria a maioria dos nossos hábitos relativos à alimentação, fontes de estresse, atividade física e novas conexões sociais.

São aproximadamente 40 anos de vida que influenciarão a longevidade ativa que para muitos ainda está datada após os 60 anos. No entanto, lidero um movimento que tem preconizado a medicina por década de vida com olhar atento, sobretudo, às doenças evitáveis a partir dos 20 anos de vida. Para cada década de vida há uma atenção especial com a saúde baseada no movimento natural das buscas e expectativas mais comuns do ser humano. Programa de ações preventivas e precoces em favor da saúde pode potencializar ainda mais a boa colheita da pessoas idosa quando são personalizados, considerando variações genéticas e de estilo de vida.

O resultado desse movimento já tem sido possível medir na prática. Recentemente, vi um homem reduzir de 23 para 11 o total de medicamentos diários apenas ao respeitar suas reais necessidades terapêuticas, incluindo avaliação integrativa que considerou análises multi e interdisciplinares da saúde que respeitaram fatores comportamentais e, além das características relativas à década de vida na qual o indivíduo se encontra.

A corrida pela vida agora, acredito, não se dará mais por mais anos de vida. Completar 100 anos não é mais uma utopia. Mas a qualidade da saúde que teremos para usufruir por completo o bônus com o qual a ciência médica nos presenteou ao longo das últimas décadas deve ser pauta urgente dos profissionais da saúde. A missão não será cumprida apenas a partir dos laboratórios de pesquisa apenas. Teremos de mudar comportamento.

O novo desafio da longevidade saudável deverá ser construído com o compromisso das lideranças médicas tanto privadas como da saúde pública em fomentar a quebra dos paradigmas da medicina reativa e promover o movimento que levará nossa sociedade a práticas de autocuidado que combinem com nossa condição de seres cada vez mais longevos.


*Julia Pinheiro é gerontóloga do Age & Health Center e diretora de Inovação do Grupo São Lucas.

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