10º câncer mais comum, leucemia sofre com invisibilidade no acesso
Por Catherine Moura
Falar em leucemia ainda desperta a sensação de estarmos diante de uma doença distante e pouco presente na realidade da maioria das pessoas. No entanto, os dados mostram exatamente o contrário. De acordo com as estimativas do Instituto Nacional de Câncer (INCA) para o triênio 2026-2028, esse câncer do sangue será o décimo mais frequente no Brasil, com mais 12 mil novos casos diagnosticados por ano.
Quando olhamos apenas para a palavra “leucemia”, há quem a associe à ideia de um câncer raro, o que não é totalmente equivocado do ponto de vista epidemiológico. Existem diferentes tipos de leucemia, alguns mais raros, outros mais frequentes, e essa variação, muitas vezes, gera confusão no entendimento público. No entanto, quando olhamos para todos os subtipos de forma conjunta, as leucemias representam uma parcela considerável das doenças oncológicas – inclusive, é o tipo de câncer mais comum nas crianças. Isso nos leva a refletir sobre como uma condição que está entre as mais diagnosticadas do país ainda assim recebe tão pouca visibilidade e tão pouca prioridade na saúde pública?
A resposta não é simples, mas certamente tem raízes em questões estruturais problemáticas. O diagnóstico precoce da leucemia salva vidas, isso é um fato. Detectar alterações no sangue por meio de um simples hemograma, antes que a doença progrida para estágios avançados, pode aumentar significativamente as chances de um tratamento eficaz. E, no entanto, muitos pacientes chegam aos serviços de saúde já em situações mais complexas, muitas vezes porque sintomas como cansaço, febre, palidez ou infecções recorrentes são confundidos com problemas menores ou negligenciados pelo próprio sistema.
Isso acontece porque a leucemia exige uma cadeia de atenção que vai desde a suspeita clínica até exames específicos e acesso a serviços especializados. E essa jornada ainda é bastante frágil em muitas regiões do país. A falta de estrutura para realização de exames básicos, o tempo de espera para consultas com hematologistas, a dificuldade de acesso a centros que realizam transplante de medula óssea, tudo isso contribui para que o diagnóstico e o tratamento da leucemia não sejam tão eficientes quanto deveriam.
Mas não se trata apenas de capacidade técnica. É também uma questão de prioridade. Se um câncer está entre os mais comuns, por que ainda é tão difícil garantir que cada paciente seja atendido com a rapidez e a precisão que a doença exige? Se avanços científicos constantes tornam o tratamento cada vez mais eficaz, por que ainda vemos desigualdades no acesso?
É preciso ampliar urgentemente a conscientização sobre a leucemia, e isso passa por desmistificar mitos e lacunas de informação e por colocar a temática nos holofotes. Sim, existem formas de leucemia que são menos frequentes e que por isso são classificadas como raras em determinadas faixas populacionais. Mas classificar a leucemia, no seu conjunto, como “uma doença rara e distante” é ignorar sua posição nos registros epidemiológicos e, mais do que isso, é invisibilizar cada um dos pacientes.
A política pública de saúde deve refletir essa realidade. Investir em educação em saúde, agilizar o encaminhamento para especialistas, ampliar a oferta de tratamentos e fortalecer a rede de cuidados complexos são medidas urgentes. Além disso, campanhas de conscientização precisam reforçar que sinais como anemia que não melhora, sangramentos inexplicáveis, dores ósseas ou infecções frequentes merecem investigação imediata.
Para o paciente e sua família, esse desconhecimento pode significar semanas ou meses perdidos, um tempo precioso na busca por um melhor prognóstico. A leucemia não espera, e o sistema de saúde também não deveria esperar.
*Catherine Moura é Médica Sanitarista e CEO da Associação Brasileira de Câncer do Sangue (Abrale).

