Insuficiência cardíaca: quando o diagnóstico chega tarde demais
Por Daniella Motta
Um paciente chega ao consultório relatando cansaço progressivo há alguns meses. Atividades simples, como subir um lance de escadas ou caminhar pequenas distâncias, passaram a exigir pausas frequentes. Nos últimos dias, ele também percebeu inchaço nas pernas e falta de ar ao deitar.
Situações como essa são comuns na prática clínica e frequentemente levam ao diagnóstico de insuficiência cardíaca uma síndrome em que o coração perde a capacidade de bombear sangue de forma eficiente para atender às necessidades do organismo. Nessa condição, o coração continua funcionando, mas com menor eficiência, comprometendo o funcionamento de diversos órgãos e afetando diretamente a qualidade de vida.
Mais do que frequente, a insuficiência cardíaca tem impacto direto sobre o sistema público de saúde. Só entre 2008 e 2021, foram mais de 3,45 milhões de hospitalizações no SUS, com custo ajustado superior a R$ 8,4 bilhões no período. Entre as doenças cardiovasculares, a insuficiência cardíaca se destaca como uma das principais causas de internação hospitalar. Estudos indicam que, entre 2008 e 2017, as doenças do aparelho circulatório foram responsáveis por mais de 11 milhões de hospitalizações no Brasil, sendo a insuficiência cardíaca uma das principais responsáveis por essas internações.
Uma doença comum e muitas vezes silenciosa
A insuficiência cardíaca geralmente é consequência de outras condições cardiovasculares, como hipertensão arterial, infarto do miocárdio e doenças das válvulas cardíacas. O envelhecimento da população e o aumento de fatores de risco, como diabetes, obesidade e sedentarismo, também contribuem para o crescimento do número de casos.
Como esses sinais podem surgir de forma gradual, muitos pacientes demoram a procurar avaliação médica. Quando o diagnóstico finalmente é feito, a doença já pode estar em estágio mais avançado, o que dificulta o controle clínico e aumenta o risco de complicações.
O desafio não é apenas diagnosticar, mas tratar corretamente
Nas últimas décadas, o tratamento da insuficiência cardíaca evoluiu de forma significativa. Hoje se sabe que a combinação adequada de medicamentos pode reduzir hospitalizações, melhorar sintomas e aumentar a expectativa de vida dos pacientes. Essas terapias atuam em diferentes mecanismos da doença, como a ativação do sistema renina-angiotensina-aldosterona e do sistema nervoso simpático, processos que contribuem para a progressão da insuficiência cardíaca quando permanecem cronicamente ativados.
Apesar dos avanços científicos, na prática clínica ainda existem barreiras importantes para a implementação completa dessas estratégias terapêuticas. Registros clínicos brasileiros mostram que parte dos pacientes não recebe todas as terapias recomendadas ou inicia o tratamento tardiamente, o que contribui para taxas elevadas de hospitalização e mortalidade.
Diagnóstico precoce pode mudar o curso da doença
Embora seja uma condição grave, a insuficiência cardíaca pode ser controlada quando diagnosticada precocemente e tratada de forma adequada.
Reconhecer os sintomas, procurar avaliação médica e iniciar o tratamento no momento certo são medidas capazes de reduzir hospitalizações e melhorar a qualidade de vida. Na prática, cada internação evitada significa mais tempo em casa e maior autonomia para o paciente.
Hoje já existem evidências científicas sólidas e terapias eficazes disponíveis. O desafio está em garantir que esse conhecimento se traduza em diagnóstico precoce, tratamento adequado e acompanhamento contínuo para todos os pacientes.
*Daniella Motta é cardiologista com formação por meio do programa de Residência Médica em Clínica Médica e Cardiologia, título de Doutorado pela Universidade de São Paulo (USP) e Registro de Qualificação de Especialista (RQE).

