Insuficiência cardíaca: o custo bilionário de fragmentar o cuidado

Por Marina Fantini

A insuficiência cardíaca deixou de ser apenas um desafio da prática clínica e passou a figurar entre os principais problemas estruturais do sistema de saúde brasileiro. No país, dados nacionais sobre hospitalizações e mortalidade indicam que a prevalência autorreferida atinge 1,1% da população adulta e chega a 3,3% entre indivíduos acima de 60 anos. O problema central, no entanto, vai além da magnitude epidemiológica: está na forma como um sistema fragmentado e pouco coordenado lida com uma condição crônica, progressiva e previsível.

O cenário atual expõe um modelo assistencial pouco eficiente. A insuficiência cardíaca é a principal causa de hospitalização por doenças cardiovasculares no Brasil, gerando um custo de R$ 1,4 bilhão em internações para o Sistema Único de Saúde (SUS) em um intervalo recente de quatro anos. Além disso, análises econômicas amplamente divulgadas na imprensa apontam uma perda anual estimada de R$ 6 bilhões para a economia nacional. Esse montante não representa investimento em cuidado qualificado, mas o custo do desperdício.

A torneira aberta do desperdício

A raiz desse colapso financeiro e clínico está na ausência de uma linha de cuidado estruturada e contínua. Com frequência, o paciente com insuficiência cardíaca é conduzido por um ciclo recorrente de descompensações e atendimentos de resgate. O pronto-socorro acaba se tornando o principal e mais oneroso ponto de contato com o sistema, com foco no evento agudo e pouca garantia de acompanhamento após a alta.

A consequência direta dessa abordagem é o aumento da morbimortalidade e das reinternações. Sem acompanhamento multidisciplinar e coordenação de cuidado adequados, o paciente retorna ao sistema em condições progressivamente mais graves. Quando o quadro se agrava, o desfecho costuma ser a internação em unidade de terapia intensiva (UTI), onde o custo diário é exponencialmente maior.

São gastos recorrentes, sem rotina e sem continuidade. Trata-se de um modelo que trata sintomas e sinais de forma pontual, sem enfrentar a doença de maneira estruturada.

Esse custo sem resultado está no centro da insustentabilidade do sistema. O problema não é a ausência de prontuário integrado, mas a dificuldade de assumir responsabilidades, romper com a inércia e buscar soluções efetivas. O “querer” e o “fazer” ainda são verbos pouco explorados na medicina complexa, muitas vezes limitados pelo receio jurídico, pela alta demanda assistencial ou pela baixa remuneração frente ao esforço exigido.

Valor em saúde: a unificação do cuidado

A superação desse cenário não depende de soluções isoladas, mas da organização do cuidado em linhas assistenciais coerentes e centradas no paciente. O foco precisa migrar do órgão doente para o indivíduo, considerando suas múltiplas necessidades clínicas e o papel ativo do paciente no próprio tratamento.

Esse é o princípio do valor em saúde: entregar resultados que importam ao paciente, utilizando os recursos de forma racional. A coordenação do cuidado, por meio de equipes multiprofissionais integradas e alinhadas, é um dos mecanismos mais consistentes para reduzir desperdícios e melhorar resultados clínicos.

Quando o cuidado é coordenado, o investimento se torna mais eficiente. É nesse ponto que a ironia do sistema se revela: enquanto ainda há hesitação em investir em soluções de alto valor, o custo do manejo clínico paliativo de pacientes elegíveis se transforma em uma carga financeira pouco visível, porém significativa, como apontam análises sobre o custo do manejo clínico da insuficiência cardíaca avançada publicadas nos Arquivos Brasileiros de Cardiologia.

A ciência, no entanto, é clara. Evidências brasileiras de avaliação econômica publicadas nesse mesmo periódico indicam uma relação favorável de custo-efetividade da oxigenação por membrana extracorpórea (ECMO) no choque cardiogênico refratário, inclusive no contexto do SUS, de acordo com parâmetros utilizados em avaliações de tecnologias em saúde.

Mais impressionante ainda é o Dispositivo de Assistência Veicular Esquerda (DAVE), o chamado “coração artificial”, uma tecnologia de ponta que devolve vida e sobrevida a pacientes com disfunção severa do ventrículo esquerdo. Não à toa, o dispositivo foi recentemente incluído no Rol da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) para pacientes inelegíveis ao transplante, um reconhecimento tardio, mas crucial, de que o investimento em intervenções de alto valor, quando coordenadas, supera o desperdício crônico da inação.

A coordenação do cuidado é a chave para que todos tenham a chance de acessar a terapia certa, no momento certo, transformando o gasto em investimento com resultado. É o único caminho para estancar a sangria financeira e, mais importante, para resgatar a dignidade e a sobrevida dos pacientes com insuficiência cardíaca.

O desafio está lançado. A solução exige coragem, organização e, acima de tudo, disposição para transformar intenção em ação.


*Marina Fantini é especialista em insuficiência cardíaca e cofundadora da CardioWays.

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