Inovar em saúde começa ouvindo quem está na ponta
Por Mariana Telles
O Brasil é o maior mercado de tecnologia médica da América Latina, movimentando cerca de 15,5 bilhões de dólares anualmente. É um dado expressivo, e que traz consigo uma responsabilidade igualmente relevante: garantir que esse volume de inovação chegue com qualidade, não apenas com velocidade. Para mim, isso começa por uma competência que raramente aparece nos roadmaps estratégicos: a capacidade de ouvir.
O setor de saúde é rico em dados e, ao mesmo tempo, carente de contexto. Temos métricas de eficiência, indicadores de segurança, benchmarks internacionais. Cada decisão pode ser sustentada por um número. Mas nenhum dado captura porque um protocolo não é seguido na prática, ou porque uma solução tecnicamente robusta não se consolida no dia a dia de uma equipe. Essa lacuna não é técnica, é humana. E ela só se fecha quando líderes estão dispostos a ir além dos relatórios e se aproximar da realidade: do gestor que opera com orçamento limitado, do profissional de saúde que adapta o equipamento à sua rotina, do paciente que vivencia a tecnologia de formas que nenhum estudo clínico consegue prever integralmente.
Faço questão de ser objetiva sobre o que estou defendendo, porque muitas vezes, “escuta” pode soar abstrato. Na prática, trata-se de escolhas concretas de gestão: quais perguntas fazemos antes de um lançamento, quem incluímos nas discussões estratégicas, como validamos uma solução antes de escalá-la. Liderar com escuta ativa é reconhecer que a melhor inteligência sobre um problema, muitas vezes, está fora da empresa, nas instituições que utilizam nossos produtos todos os dias.
A complexidade do sistema de saúde brasileiro não se manifesta apenas na geografia, ela está dentro de cada instituição. Uma única decisão envolve o gestor que avalia custos, o médico que avalia eficácia clínica, o enfermeiro que vai operar o equipamento no dia a dia. São perspectivas legítimas e muitas vezes conflitantes. Por isso, ouvir o cliente não deveria ser apenas uma etapa do processo comercial, mas o ponto de partida para construir parcerias relevantes. Menos soluções prontas. Mais perguntas genuínas. É dessa escuta que surgem as soluções que, de fato, permanecem e geram valor.
O desafio que é transformar essa escuta em um processo cada vez mais estruturado, consistente e estratégico, e incentivar que essa prática avance em todo o setor.
Em um mercado que cresce em volume, em complexidade e em expectativa, a tendência natural é acelerar: lançar mais, anunciar mais, escalar mais rápido. Eu entendo essa lógica. Mas acredito que as empresas que vão liderar o próximo ciclo da saúde no Brasil serão aquelas de desacelerar no momento certo para ouvir melhor, e, a partir disso, decidir com mais precisão.
Esse é o tipo de liderança que escolho exercer. E é o convite que faço ao setor.
*Mariana Telles é Diretora Geral da Baxter Brasil.

