Diagnóstico laboratorial: desafios que vão além da tecnologia
Por Guilherme Ambar
O diagnóstico laboratorial ocupa uma posição estratégica nos sistemas de saúde. Estima-se que mais de 70% das decisões médicas sejam influenciadas por exames laboratoriais, o que torna o setor um dos pilares para a prevenção, o diagnóstico precoce e o acompanhamento de doenças. Ainda assim, inovar nessa área continua sendo um desafio complexo, que vai muito além da incorporação de novas tecnologias.
Nos últimos anos, o avanço de ferramentas como biologia molecular, automação, inteligência artificial e análise de grandes volumes de dados vem transformando profundamente os laboratórios. No entanto, a inovação real não acontece apenas com a chegada de equipamentos mais modernos ou testes mais sofisticados. Ela exige mudanças estruturais, regulatórias, culturais e econômicas.
Um dos principais desafios está na integração tecnológica. Sistemas laboratoriais, prontuários eletrônicos e plataformas hospitalares ainda operam, muitas vezes, de forma fragmentada. A falta de interoperabilidade limita o uso inteligente dos dados gerados, dificultando análises mais amplas, a medicina personalizada e o apoio efetivo à decisão clínica. Transformar dados laboratoriais em informação clínica acionável é uma fronteira que o setor precisa cruzar.
Outro ponto sensível é a validação clínica e regulatória. Diferentemente de outros segmentos da inovação em saúde, o diagnóstico laboratorial lida diretamente com decisões críticas, o que exige níveis elevados de evidência científica, rastreabilidade e controle de qualidade. Processos regulatórios rigorosos são fundamentais para a segurança do paciente, mas também impõem prazos longos e custos elevados, o que pode desacelerar a adoção de soluções inovadoras.
A capacitação profissional também merece destaque. A incorporação de exames moleculares, painéis sindrômicos, bioinformática e inteligência artificial demanda equipes multidisciplinares, com formação que vá além da prática laboratorial tradicional. Preparar profissionais para interpretar resultados cada vez mais complexos e integrá-los ao contexto clínico é tão importante quanto investir em tecnologia.
Há ainda o desafio da sustentabilidade econômica. Inovar custa caro, mas o setor enfrenta forte pressão por redução de preços, tanto no sistema público quanto no privado. Muitas vezes, exames mais avançados não são adequadamente remunerados, apesar do impacto positivo que podem ter na redução de internações, no uso racional de antibióticos e na condução mais eficiente do tratamento. Demonstrar o valor clínico e econômico do diagnóstico é essencial para que a inovação seja viável a longo prazo.
A expansão do diagnóstico descentralizado, com testes rápidos e point of care, também traz novas questões. Embora ampliem o acesso e agilizem o cuidado, esses exames exigem protocolos rigorosos de qualidade, correta interpretação dos resultados e integração com o histórico do paciente, para evitar decisões clínicas baseadas em informações isoladas.
Por fim, é impossível falar de inovação sem colocar o paciente no centro do processo. Resultados mais rápidos, claros e contextualizados fazem diferença real na jornada de cuidado. A experiência do paciente, a comunicação dos laudos e o uso responsável das informações passam a ser parte integrante da inovação em diagnóstico.
O futuro do diagnóstico laboratorial será definido não apenas pela tecnologia disponível, mas pela capacidade do setor de integrar ciência, dados, regulação, pessoas e sustentabilidade. Inovar, nesse contexto, é garantir precisão, confiança e impacto real na saúde da população.
*Guilherme Ambar é biólogo, CEO da Seegene Brasil e diretor de Inovação da CBDL.

