Metodologia detecta inflamação coronária antes dos sintomas
A doença arterial coronariana é a principal causa de morte no mundo, e identificar quem está em risco antes do primeiro evento cardíaco é um dos maiores desafios da medicina cardiovascular moderna. Com esse objetivo, pesquisadores brasileiros, desenvolveram uma abordagem inovadora para mapear inflamação ao redor das artérias do coração de forma não invasiva, e apresentaram os resultados no ECR 2026 (European Congress of Radiology), em Viena, o principal congresso europeu de radiologia.

O estudo investigou pacientes obesos sem qualquer diagnóstico de doença coronariana — escore de cálcio zero e sem evidência de aterosclerose. Pela avaliação convencional, seriam pacientes cardiacamente saudáveis. A pergunta central da pesquisa é justamente o que acontece antes dessa linha: se a inflamação ao redor das artérias já está presente em pessoas com obesidade mesmo sem nenhum sinal clínico detectável.
“A obesidade está associada à inflamação sistêmica crônica, que pode afetar silenciosamente as artérias do coração muito antes de qualquer sintoma aparecer. O que buscamos é justamente captar esse processo no seu estágio mais precoce por meio da angiotomografia coronariana”, explica Patricia Terasaca, pesquisadora do Hospital Sírio Libanês e responsável pela apresentação do estudo no congresso.
Metodologia
A pesquisa analisou 80 pacientes entre 50 e 83 anos, divididos em dois grupos: 50 pacientes obesos, com IMC igual ou superior a 30 kg/m², e 30 pacientes no grupo controle, com IMC abaixo desse limiar. A avaliação foi feita por meio da angiotomografia coronária (CCTA), utilizando dois indicadores quantitativos: o FAI (fat attenuation index) e o FAM (mean fat attenuation index), capazes de revelar alterações inflamatórias no tecido adiposo pericoronário.
A base científica da metodologia está na biologia do tecido gorduroso ao redor das artérias. Quando a parede do vaso inflama, ela libera moléculas que alteram as características dos adipócitos locais, tornando esse tecido mais aquoso e modificando sua atenuação na escala Hounsfield, uma mudança que a tomografia consegue captar com precisão.

Os exames foram realizados em tomógrafos de dupla fonte, tecnologia que permite alta resolução temporal e espacial mesmo em pacientes com frequência cardíaca elevada ou obesidade. A análise seguiu um fluxo de processamento automatizado via software especializado de análise de placa, garantindo segmentação padronizada e quantificação reprodutível dos parâmetros inflamatórios.
“Transformamos a angiotomografia coronária em uma espécie de termômetro da inflamação ao redor das artérias do coração. É uma janela diagnóstica que ainda não faz parte da rotina clínica, mas que pode mudar a forma como avaliamos o risco cardiovascular”, afirma Terasaca.
Ainda de acordo com a pesquisadora, os resultados preliminares mostram que ainda há muito a investigar, especialmente em pacientes com obesidade de maior grau.
O estudo contou com o apoio estatístico do Prof. Dennis Henrique Leandro Silva, coautoria dos doutores Giovanni Cerri, César Higa Nomura, Roberto Nery Dantas Junior, Ana Carolina Costa da Silva e Douglas Carli Silva.
A ciência brasileira no cenário global
A apresentação no ECR 2026 reflete um movimento mais amplo de consolidação da radiologia brasileira no cenário internacional. “A presença de especialistas brasileiros em um dos mais importantes congressos europeus da especialidade reforça não apenas a qualidade científica produzida no país, mas também a capacidade de contribuir com discussões globais sobre inovação, inteligência artificial, medicina quantitativa e novas abordagens diagnósticas. Mesmo diante dos desafios estruturais e das limitações ainda existentes no ecossistema de pesquisa e incorporação tecnológica, iniciativas brasileiras seguem ganhando visibilidade internacional e demonstrando potência na construção do futuro da saúde”, destaca Ana Carolina Costa da Silva, PhD, responsável pela colaboração científica para Tomografia Computadorizada na Siemens Healthineers na América Latina.

