Reorganização das cadeias globais de saúde abre oportunidade para indústria de dispositivos médicos
A reorganização das cadeias globais de Saúde vem criando uma nova disputa por fornecedores confiáveis, capacidade produtiva e segurança de abastecimento. Em um cenário marcado por tensões comerciais, tarifas, instabilidade geopolítica e preocupação com a concentração da produção em poucos países, a indústria brasileira de Dispositivos Médicos tem a oportunidade de ampliar sua presença internacional e, ao mesmo tempo, fortalecer a autonomia produtiva do país em tecnologias essenciais para a Saúde.
Dispositivos Médicos incluem equipamentos hospitalares, produtos para diagnóstico, implantes, próteses, materiais utilizados em procedimentos médicos, tecnologias odontológicas e outras soluções fundamentais para a prevenção, diagnóstico, tratamento e reabilitação de pacientes.
O tema ganha relevância em um momento em que Estados Unidos, Europa e outras economias vêm revisando suas estratégias industriais para reduzir vulnerabilidades em áreas consideradas críticas. Para a ABIMO — Associação Brasileira da Indústria de Dispositivos Médicos —, esse movimento abre uma janela estratégica para que o Brasil deixe de ser apenas um grande mercado consumidor e avance como fornecedor mais relevante nas cadeias globais de Saúde.

“O mundo está procurando fornecedores confiáveis, capazes de garantir qualidade, segurança de abastecimento e capacidade de resposta em cenários de crise. O Brasil tem uma indústria de Dispositivos Médicos consolidada, experiência exportadora e competência tecnológica para ocupar uma posição mais estratégica nesse novo contexto internacional”, afirma Larissa Gomes, Gerente de Projetos e Marketing da ABIMO.
A oportunidade ocorre em um momento de contrastes para o Setor. O mercado brasileiro de Dispositivos Médicos movimentou R$ 85,4 bilhões em 2025, crescimento de 13,9% em relação ao ano anterior. Apesar da força do mercado interno, o país ainda registra elevada dependência externa em segmentos estratégicos. No mesmo período, o déficit da balança comercial do Setor alcançou US$ 9,9 bilhões, com importações superiores a US$ 11 bilhões.
Para a entidade, os dados mostram que o Brasil possui escala, demanda e base industrial, mas ainda precisa transformar esse potencial em uma política consistente de competitividade, inovação e adensamento produtivo.
“O desafio brasileiro não é ausência de competência industrial. O país tem empresas inovadoras, capacidade técnica e presença em mercados internacionais exigentes. O que falta é um ambiente mais favorável para ampliar investimentos, acelerar inovação, reduzir assimetrias competitivas e fortalecer a produção nacional em áreas de maior intensidade tecnológica”, avalia Larissa.
A indústria brasileira já exporta para alguns dos mercados mais exigentes do mundo. Entre janeiro e maio de 2026, as exportações do Setor alcançaram US$ 407,4 milhões. Produtos brasileiros chegam a mercados como Estados Unidos, Alemanha, Bélgica, Suíça e Países Baixos, demonstrando a capacidade do país de competir em qualidade, tecnologia e conformidade regulatória.
Segundo a ABIMO, a discussão sobre Dispositivos Médicos deixou de ser apenas uma pauta de comércio exterior e passou a integrar agendas de desenvolvimento econômico, inovação, segurança sanitária e soberania produtiva. A experiência recente mostrou que a dependência excessiva de fornecedores externos pode comprometer a capacidade de resposta dos sistemas de Saúde diante de crises sanitárias, conflitos internacionais ou interrupções logísticas.
“Não estamos falando apenas de exportar mais. Estamos falando de uma indústria estratégica para a Saúde, para a geração de empregos qualificados, para a inovação tecnológica e para a capacidade do país de responder às necessidades do seu próprio sistema de Saúde. O Brasil pode ampliar sua presença internacional e, ao mesmo tempo, reduzir vulnerabilidades internas em tecnologias essenciais”, afirma Larissa.
A ABIMO avalia que a janela aberta pela reorganização das cadeias globais não será permanente. Para transformar o Brasil em um polo mais relevante na produção de Dispositivos Médicos, será necessário avançar em políticas de longo prazo voltadas ao financiamento da inovação, à modernização regulatória, à ampliação das exportações, à previsibilidade para investimentos e à isonomia competitiva frente a produtos importados.
Em um ambiente internacional cada vez mais marcado pela busca por fornecedores alternativos e cadeias produtivas mais resilientes, o Brasil reúne condições para se posicionar como parceiro estratégico da Saúde global. Para a ABIMO, o próximo passo é transformar capacidade industrial em estratégia nacional, com visão de longo prazo e articulação entre governo, indústria, academia e setor produtivo.

