IA já chegou aos hospitais, desafio é amadurecer essa presença

Por Valter Lima

A inteligência artificial (IA) deixou de ser promessa futura e já está sendo utilizada no cotidiano de diversos hospitais brasileiros, inclusive públicos. Em unidades do SUS espalhadas pelo país, algoritmos apoiam a triagem, interpretam exames, ajudam a detectar lesões que poderiam passar despercebidas e organizam fluxos que antes dependiam exclusivamente da sobrecarga humana. Não é exagero dizer que a IA começa a mudar o cuidado em saúde onde ele é mais desafiador: na ponta, diante de filas, escassez de especialistas e pressão assistencial permanente.

Hospitais universitários e centros de referência já utilizam modelos capazes de comparar imagens, identificar padrões clínicos e organizar prontuários digitais com maior precisão. Ferramentas de IA têm apoiado médicos na detecção precoce de doenças, na análise mais rápida de exames complexos e na personalização de tratamentos, com impacto direto na segurança do paciente. Em um sistema como o SUS, que cuida de mais de 160 milhões de pessoas, essa capacidade aumenta a eficiência, sim, mas principalmente amplia o acesso, reduz desigualdades e evita erros que salvam vidas.

Mas a transformação vai além do atendimento. A IA tem um papel cada vez mais decisivo na gestão dos hospitais. Ao automatizar tarefas repetitivas como o resumo de prontuários, o preenchimento de dados e a organização de filas, ela libera médicos e enfermeiros para fazer o que só eles podem fazer: cuidar. Sistemas automatizados ajudam a prever o risco de deterioração clínica, direcionam recursos para quem mais precisa e diminuem tempos de espera em setores como emergência, radiologia e internação. Em uma rede pública frequentemente sobrecarregada, isso significa ganho real de produtividade.

Nada disso, porém, ocorre sem desafios. A adoção da IA nos hospitais ainda esbarra na falta de infraestrutura digital, na baixa interoperabilidade entre sistemas e, sobretudo, na necessidade de proteger adequadamente dados sensíveis. São informações sobre milhões de pacientes que alimentam algoritmos cada vez mais poderosos e que exigem segurança proporcional ao seu valor. Para que a IA avance com responsabilidade, os hospitais precisam de bases de dados mais estruturadas, padrões claros de governança e práticas contínuas de validação dos modelos utilizados.

Outro ponto crítico é a confiança dos profissionais. Muitos médicos ainda se mostram reticentes quanto ao uso da IA, seja pela familiaridade limitada com sistemas preditivos, seja pelo receio de que a tecnologia possa interferir no julgamento clínico. Essa percepção precisa ser trabalhada de maneira cuidadosa. A IA não substitui o olhar do especialista; ela o expande. Ajuda a reduzir o cansaço cognitivo, aumenta a precisão diagnóstica e devolve tempo — o insumo mais escasso da assistência para o relacionamento com o paciente.

Paralelamente, o Congresso Nacional discute o marco regulatório da IA, que deve estabelecer regras proporcionais ao risco de cada aplicação. É um passo importante, sobretudo para hospitais públicos, que dependem de segurança jurídica para incorporar novas tecnologias. Uma regulação equilibrada e protetiva, mas não punitiva pode evitar interrupções de projetos, garantir transparência nos algoritmos e fortalecer a confiança da sociedade no uso da IA em saúde. O país precisa de normas que permitam inovar sem perder de vista a ética, a privacidade e a responsabilidade.

A inteligência artificial já está dentro dos hospitais. A questão agora é como fazê-la amadurecer, com governança, transparência e foco no paciente. Se bem aplicada, ela pode reduzir custos, melhorar desfechos, acelerar diagnósticos e tornar o SUS mais eficiente e justamente onde a necessidade é maior. É uma oportunidade histórica para transformar o cuidado em saúde no Brasil. Mas, como toda tecnologia poderosa, exige que avancemos com ambição e cautela na mesma medida.


*Valter Lima é Diretor executivo e empresário, sócio da CTC.

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