Futuro da saúde: Healthtechs, as novas fintechs?

*Por André Sá

Nos últimos anos temos visto inúmeras healthtechs aparecendo e inovando determinados nichos no mercado de saúde brasileiro. Segundo os dados do HealthTech Report 2020, relatório realizado pela consultoria Distrito, o número de startups de saúde cresceu 118% no país, passando de 248 para 542 no período de 2018 a 2020.

Essa movimentação já aconteceu a um tempo atrás no setor financeiro, em uma esfera distinta, mas com grandes similaridades com a categoria de saúde que temos hoje. Em meados de 2010, às fintechs começaram a surgir no mercado, nas mesmas condições que as healthtechs estão aparecendo, em um cenário extremamente favorável e condizente para que a disrupção ganhasse força. Ou seja, um mercado enorme e muito relevante na vida das pessoas; com cliente e/ou paciente que não está no centro; com incentivos desalinhados; com baixa inovação; e um mercado concentrado nos grandes players.

A mudança foi necessária, principalmente depois da crise de 2008, gerada por uma série de operações feitas com interesses desalinhados entre bancos e clientes, que gerou uma falta de credibilidade nas instituições, ocasionando uma corrida aos bancos por liquidez. Na época, a saída encontrada pelos bancos centrais foi a disponibilização de seus balanços para acalmar o público. Saímos da crise com diversas iniciativas mais voltadas ao cliente, e surgiram empresas como Square, Stripe, Stone e Nubank, para revolucionar o mercado com uma nova proposta de serviço.

Este ano, enfrentamos uma crise no setor de saúde, similar com o que a categoria financeira vivenciou, claro que cada na sua esfera, gravidade e proporção, mas sem dúvidas gerou um descasamento entre a capacidade do sistema de saúde e o potencial número de contaminados pelo coronavírus. Em ambas as situações o sistema vigente, o financeiro e o de saúde, não funcionou conforme o esperado, porém trouxe um chacoalhão para olharmos para o que acontece ao nosso redor.

A meu ver, essa disrupção na categoria de saúde é mais que necessária, uma vez que o mercado é enorme e muito relevante na vida da população. Hoje, movimenta o equivalente a quase 10% do PIB brasileiro, nos EUA é 16%. Mas, mesmo com tamanha importância, os interesses desalinhados trazem ineficiências que colocam a sustentabilidade da indústria em risco, já que historicamente se inova pouco e a experiência do paciente nem sempre foi prioridade.

Atualmente já existem empresas que nascem com esse novo olhar, com o intuito de entender e acolher a necessidade daquele que será atendido. Nos Estados Unidos, por exemplo, a Livongo, que foi adquirida pela Teladoc Health num deal de U$18,5bi, chega trazendo a proposta de olhar para aqueles que são crônicos. Uma vertente super importante, já que muitas vezes estão desassistidos, consomem a maior fatia dos recursos assistenciais, e sofrem com um sistema de saúde desenhado para atendê-los apenas de maneira eventual.

Acredito que essa transformação irá gerar muito valor, pois o futuro da saúde tende a ser cada vez mais preventivo, onde os pacientes serão olhados em tempo integral, com os objetivos focados em suas necessidades. Com isso, aumentaremos o engajamento do paciente ao seu tratamento, uma vez que quando ele se encontra empoderado e informado sobre sua condição, aumenta-se muito a probabilidade de apresentar melhora clínica e, consequentemente, de fazer uso racional dos recursos de saúde, que estão cada dia mais escassos.

Penso que perante ao cenário e aos apontamentos que trouxe, você deve estar se questionando sobre o que esperar para o futuro da saúde. Uma hesitação natural, já que tudo parece tão incerto. Eu particularmente tenho muitas teses, como também muitas indagações, mas creio que daqui para frente algumas coisas vão se acentuar ainda mais, como: o carinho, qualquer pessoa quer ser bem cuidada; a disponibilidade para sanar as eventuais dúvidas que podem aparecer no processo; e por fim, mas não menos importante, a saúde, pois ninguém quer ficar indo ao hospital, tomando remédios e passando por situações desagradáveis.

A meu ver, nosso sistema só tem a crescer com essa transformação e disrupção. Se o desenrolar dessa história acontecer conforme o esperado, daqui a uns 10 anos as healthtechs serão as novas fintechs, de forma que o paciente estará no centro, como protagonista, e com inúmeros novos players entregando valor para ele.


*André Sá é co-founder da Klivo, healthtech focada em melhorar a vida de pacientes crônicos. Em sua carreira passou por instituições como BTG Pactual, Stone, Bazil Pharma.