Projeto do HCFMUSP reduz quase pela metade mortes de mães em hospitais parceiros através da telemedicina
Uma iniciativa pioneira conduzida por pesquisadores da obstetrícia e da UTI Respiratória do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HCFMUSP), em parceria com o Ministério da Saúde, provou que a tecnologia e o compartilhamento de conhecimento podem ser o caminho para enfrentar um dos desafios da saúde pública brasileira: a mortalidade materna.
Através do projeto TeleUTI Obstétrica, 16 hospitais brasileiros viram o número de mortes de gestantes e puérperas despencar 45% entre 2022 e 2024. O índice de queda é mais que o dobro da média nacional registrada no mesmo período (20%).
O estudo, publicado internacionalmente pela revista BMJ Global Health, mostra que a intervenção direta dos especialistas do HCFMUSP ajudou a evitar, no mínimo, 21 mortes que ocorreriam sem o suporte do projeto.
Capacitação em diferentes modalidades
O projeto baseou-se em três pilares fundamentais: capacitação em diferentes modalidades (síncrona, assíncrona e in loco), discussão diária de casos clínicos reais entre especialistas por meio de plataformas digitais e monitoramento de indicadores de saúde.
No pilar capacitação, o projeto promoveu uma robusta estratégia de educação multidisciplinar, com a participação de diferentes profissionais de saúde, em especial médicos, enfermeiros e fisioterapeutas. A capacitação assíncrona, com carga horária de 30 horas, contou com 564 concluintes e abordou temas relacionados à gestão assistencial e aos cuidados críticos de pacientes obstétricas.
Já a capacitação síncrona reuniu 1707 participantes e discutiu as causas da mortalidade materna, bem como estratégias para o manejo de casos graves em UTIs. Além disso, foram realizadas capacitações in loco nos hospitais participantes, com 831 alunos concluintes. Destaca-se que a programação incluiu workshops de dois dias, com foco nas principais causas de morte materna, especialmente hemorragia pós-parto e emergências hipertensivas.

Suporte contínuo às UTIs por telessaúde, 7 dias por semana
Por meio de discussões diárias de casos clínicos reais, com duração de pelo menos uma hora, equipes das UTIs dos hospitais participantes puderam analisar situações complexas com especialistas em obstetrícia e terapia intensiva do HCFMUSP. No total, 1351 pacientes foram assistidos ao longo de mais de 4500 discussões.
“Demonstramos que o treinamento e a discussão de casos complexos com especialistas elevam a qualidade da tomada de decisão clínica e criam um ambiente de maior segurança para as equipes”, afirma o Prof. Doutor Carlos Carvalho, Diretor da Saúde Digital do HCFMUSP e primeiro autor do artigo.
Tecnologia acessível e modelo escalável para o SUS
O projeto utilizou tecnologia modesta: computadores, webcams e internet estável, associados a uma plataforma desenvolvida pela TI do Instituto do Coração (InCor), provando que soluções inovadoras não precisam de investimentos altos em tecnologia para serem eficazes. Isso torna o modelo altamente escalável para todas as regiões do Brasil e para países em desenvolvimento que enfrentam desafios semelhantes na área da saúde.
A iniciativa alinha-se aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU, que visam reduzir a mortalidade materna global, e apoia a meta brasileira de atingir menos de 30 mortes por 100 mil nascidos vivos até 2030.

