Câncer colorretal: 40% demoram a buscar atendimento após sinais
O câncer colorretal ainda está distante do cotidiano da maioria dos brasileiros, mas isso não significa desinformação sobre seus riscos. É o que mostra a pesquisa inédita “A saúde do brasileiro, hábitos de vida e o uso de tecnologia em diagnósticos médicos”, do A.C.Camargo Cancer Center realizada pela Nexus – Pesquisa e Inteligência de Dados, que ouviu mais de 2 mil pessoas em todo o país.
Segundo o levantamento, 8 em cada 10 brasileiros reconhecem como grave a presença de sangue nas fezes ou a mudança de funcionamento no intestino por mais de um mês, dois dos principais sintomas da doença. Mas na maioria dos casos, o conhecimento não vem a partir da proximidade: apenas 21% dos entrevistados conhecem alguém que já teve a doença, sendo 15% um parente muito próximo e 6% um amigo ou conhecido. Outros 75% disseram que nunca tiveram contato com pacientes desse tipo de câncer.
O tema ganha ainda mais relevância diante dos números recentes da doença no país. Em fevereiro deste ano, o Instituto Nacional de Câncer (INCA) estimou 53.810 novos casos de câncer colorretal por ano no Brasil para o triênio 2026-2028, o que o torna o segundo tumor com maior incidência entre os brasileiros.
Dos 80% de entrevistados que reconhecem a gravidade de sangue nas fezes ou uma mudança no funcionamento intestinal que persista por mais de um mês, 42% consideram esses sintomas “muito grave”. Esse reconhecimento chega a 44% entre quem já conviveu de perto com a doença.

A pesquisa também indica que a associação entre esses dois sintomas e o câncer de intestino é majoritária, mas ainda carece de firmeza. São 67% dos brasileiros que concordam que sangue nas fezes ou alterações intestinais prolongadas podem indicar a doença, mas apenas 24% concordam “muito”. A maior parte (43%) demonstra concordância apenas moderada.
Entre o alerta e a ação, uma lacuna perigosa
Um dos achados mais relevantes do estudo diz respeito à distância entre reconhecer o risco e agir diante dele. Na vida real, 9% dos entrevistados afirmam já ter notado a presença de sangue nas fezes. Desse grupo, embora 59% tenham buscado atendimento médico imediatamente, uma parcela expressiva de 40% não teve essa reação: 19% não fizeram nada e esperaram o sintoma passar, 10% aguardaram dias ou semanas antes de procurar um médico, 7% recorreram a remédios caseiros ou mudanças na alimentação, 3% foram à farmácia buscar medicação por conta própria e 1% pesquisou na internet antes de buscar orientação profissional.
A busca imediata por um diagnóstico é maior entre quem tem melhores condições financeiras (86%), brasileiros acima dos 60 anos (72%) e moradores do Sudeste (72%). As mulheres (63%) também costumam buscar mais ajuda imediata do que os homens (54%). Entre os moradores do Norte/Centro-Oeste, chega a 43% o número de entrevistados que apenas esperou o sintoma passar.
Exame de rastreamento ainda é desconhecido pela maioria
Outra descoberta preocupante da pesquisa A.C.Camargo/Nexus é o desconhecimento sobre ferramentas de rastreamento precoce. Dois em cada três brasileiros (67%) nunca ouviram falar do exame “Pesquisa de Sangue Oculto nas Fezes” (PSO), recurso simples e utilizado para identificar sinais da doença antes mesmo do aparecimento de sintomas evidentes. Apenas 11% já realizaram o exame, enquanto 21% conhecem o procedimento, mas nunca o fizeram. O desconhecimento chega a 85% entre os mais jovens, de 16 a 24 anos, e também é maior do que a média entre homens (76%), pessoas com menor renda (73%) e que estudaram apenas até o ensino fundamental (72%).
Entre quem teve ou conhece alguém que teve câncer colorretal o desconhecimento do exame cai para 56% e o percentual de entrevistados que realizaram o PSO quase triplica: 8% dos brasileiros que não têm contato com a doença já realizaram o exame contra 21% de quem já teve.
Diante do crescimento da doença no país, especialistas do A.C.Camargo reforçam a importância de não ignorar sinais como sangramento, alteração no ritmo intestinal, dor abdominal persistente e perda de peso sem causa aparente, além da realização de exames preventivos a partir dos 45 anos ou antes, conforme orientação médica e histórico familiar. “O diagnóstico precoce do câncer colorretal está diretamente ligado a taxas de cura mais elevadas, o que reforça o papel de exames simples, como a pesquisa de sangue oculto nas fezes e a colonoscopia, na detecção da doença ainda em estágio inicial”, comenta Samuel Aguiar, líder do Centro de Referência de Tumores Colorretais do A.C.Camargo Cancer Center.
Metodologia
A Nexus, Pesquisa e Inteligência de Dados, entrevistou, face a face, 2.015 cidadãos com idade a partir de 16 anos, nas 27 Unidades da Federação (UFs). A amostra foi controlada a partir de quotas de sexo, idade, PEA, região e condição do município. A margem de erro no total da amostra é de 2 p.p., com intervalo de confiança de 95%. Após a coleta, foi aplicado um fator de ponderação para corrigir eventuais distorções em relação ao plano amostral; devido ao arredondamento, a soma dos percentuais pode variar de 99% a 101%. A etapa de campo ocorreu entre os dias 25 e 30 de junho de 2026. Estatístico responsável: Neale El-Dash, Conre 8656-A.

