Por que o problema não é “só” a graduação médica

Por Wilson Pedreira

O Brasil precisa de um espectro amplo de médicos. Temos um número de médicos “per capita” razoável, mas com problemas gravíssimos de distribuição. E agora temos mais uma questão – que médicos estamos formando? Muitas funções precisam de especialização e de educação continuada. Ouso dizer que talvez a maioria. Na área médica isto é vital, no sentido literal da palavra. A medicina produz avanços contínuos e requer que os médicos tenham conhecimento teórico, experiência prática e treinamento humanístico, com uma base sólida e programa de atualização contínua.

O Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica – ENAMED mostrou que saímos de uma base de conhecimento sujeita a muita preocupação. Mais de 30% dos cursos não atingiram critérios mínimos de proficiência e apenas 46,4% obtiveram classificação acima de 4. A receita do desastre está dada há muito tempo. As faculdades precisam de um corpo docente tecnicamente qualificado, com competências para o ensino e estrutura física e tecnológica que seja compatível para capacitar o profissional para tratar a saúde de uma pessoa. Além do hospital-escola minimamente aparelhado, que permita uma visão ampla das principais áreas da medicina. Não é difícil correlacionar estas necessidades não atendidas com o baixo desempenho no Exame.

Saindo desta base de conhecimento, muitas vezes imperfeita, temos o próximo passo que é a especialização. Na verdade, mais do que isso: o aprofundamento do aprendizado e da experiência, em um programa de prática bem orientada, unindo o aprendizado científico crítico em múltiplos cenários reais de prática. Ao sair da faculdade, por melhor que ela seja, ainda é necessário o estudo continuado e o aperfeiçoamento técnico, motor e comportamental. Isto serve também para generalistas e médicos de família – atividades que são também uma especialização.

Algumas projeções mostram que 40% dos médicos não fazem um Programa de Residência ou um Programa de Estágio qualificado. Os motivos para isso vão da disponibilidade limitada de vagas ao desinteresse dos médicos recém-formados. Para somar-se a esta situação longe da ideal, aqueles que procuram os programas de especialização muitas vezes se deparam com as mesmas limitações de cursos de graduação – grades com desenhos didáticos inadequados e baixa qualidade do corpo docente e da estrutura.

Na Ahfip, os hospitais associados são instituições de Ensino. Aliás, esta é uma condição inerente para participação na Associação. Juntos, oferecem dois cursos de graduação em Medicina (um ainda em aprovação), 11 programas de várias especialidades para Residência Médica, seis programas amplos de especialização e seis programas de pós-graduação. A questão não é apenas oferecer programas, é garantir acesso a hospitais-escola com infraestrutura robusta e corpo docente qualificado, conduzindo a transição do aluno para a prática profissional. É integrar definitivamente a academia, hospitais e sistemas de saúde. O ensino médico precisa proporcionar ambientes assistenciais reais, complexos e bem geridos, com participação ativa das lideranças médicas e institucionais. Acreditamos plenamente nisso. Em nossos Associados, os programas de graduação, residência e especialização estão desenhados para garantir ao aluno o aprendizado teórico-prático focado nas melhores evidências médicas. Com vivência de atividades práticas acompanhadas por professores e preceptores treinados para esta função, visam o desenvolvimento do aluno e não a utilização de mão de obra na operação. O programa didático tem que ser desenhado e acompanhado para isso, com avaliação contínua de sua qualidade.

Precisamos vencer as questões políticas e corporativistas para tratar destes problemas de maneira planejada, da base ao topo. As associações médicas e os órgãos governamentais precisam se integrar para garantir que o “piloto” da saúde tenha as horas de “brevê” adequadas, com treinamento teórico-prático nos “aviões” do nosso organismo.

Médicos malformados, sem mecanismos de aperfeiçoamento e sem cultura de aprendizado contínuo, trarão impacto na qualidade da saúde, na morbidade, na mortalidade e, sim, no custo (o menos importante, mas também limitante).

A definição de critérios rígidos para o funcionamento de faculdades de Medicina e Programas de Especialização é urgente e óbvia. Existe a necessidade de exigir a cultura de qualidade do Ensino Médico. Precisamos oferecer programas de especialização e aprendizado contínuo adequados, respeitadas as necessidades regionais. Nossa sociedade merece e tem esse direito.


*Wilson Pedreira é CEO da Associação dos Hospitais Filantrópicos Privados (Ahfip).

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