O impacto de um novo indicador na gestão do Pronto-Socorro

Por Thales Oliveira

Em um ambiente de urgência, indicadores de volume de atendimento e tempos de espera são responsáveis pelo planejamento e desenvolvimento das principais ações de melhoria. No pronto-socorro do Sabará Hospital Infantil não é diferente. Tais indicadores sempre nortearam a adoção de medidas, buscando a manutenção da qualidade do atendimento aos pacientes que procuram a instituição.

Todavia, diante da redução drástica do volume de pacientes experimentada durante a pandemia de Covid-19, seja pelo medo das famílias em circular em ambientes hospitalares ou pelas medidas de restrição adotada pelos governos locais, tais indicadores passam a ser menos relevantes para a tomada de decisão.

Lançar um olhar diferenciado sobre indicadores foi decisivo para manter a qualidade e atratividade do serviço de urgência do Sabará durante a pandemia.

Com o objetivo de oferecer uma maior segurança para as famílias que procuraram o pronto-socorro do Sabará Hospital Infantil, foram criados dois fluxos de atendimento no Hospital, a partir do perfil dos pacientes. O indicador perfil de pacientes, ganhou relevância na gestão do P.S. e orientou a criação de áreas segregadas, uma destinada a receber crianças com sintomas respiratórios e outra destinada a pacientes sem sintomas respiratórios.

Ao planejar a divisão do fluxo, e levando em consideração o histórico majoritário de pacientes respiratórios (70%) no pronto-socorro do Sabará, iniciamos sua divisão dedicando a área com mais consultórios médicos para o atendimento das crianças com sintomas respiratórios. Porém, após duas semanas de fechamento das escolas e adoção das medidas restritivas governamentais visando o isolamento social, o perfil dos pacientes que buscavam o pronto-socorro se alterou completamente. Naquele momento, inversamente, 60% dos pacientes atendidos na urgência do Hospital eram pacientes não-respiratórios, os quais eram acomodados em um espaço que continha apenas 20% dos consultórios médicos existentes. Mesmo com a preponderância percentual de pacientes não-respiratórios, como o número absoluto de atendimentos durante os três primeiros meses da pandemia apresentava uma redução de 80% do histórico de atendimentos diários, tal espaço se mostrava suficiente para realizar o acolhimento necessário.

Entretanto, com a redução das medidas de isolamento e o consequente retorno gradual do volume de pacientes, o espaço dedicado aos casos não-respiratórios se mostrou insuficiente e o planejamento de mudanças estruturais se fez necessário.

Além disso, a retomada gradual dos alunos às escolas fez com que o comportamento do indicador de perfil de atendimentos se alterasse novamente, e assim, passamos a verificar o retorno dos pacientes respiratórios (65%) ao pronto-socorro.

Essa alternância entre o perfil de pacientes mostrou que para garantir qualidade assistencial adaptada a nova demanda, era preciso criar estruturas que permitissem uma rápida flexibilidade estrutural entre áreas (respiratória e não respiratória), pois permitiria melhora na ineficiência operacional, natural de um pronto-socorro dividido. Essa flexibilidade estrutural permite que determinados consultórios possam se alternar conforme a demanda de cada fluxo.

Portanto, o acompanhamento do indicador do perfil de pacientes e a adoção de uma infraestrutura versátil no pronto-socorro passaram a ser peças-chaves na busca pelo melhor atendimento aos pacientes do serviço de urgência, especialmente em um contexto em que medidas de isolamento social são preconizadas.


*Thales Oliveira é supervisor do Pronto-Socorro do Sabará Hospital Infantil.