Fim do diagnóstico fragmentado: era da inteligência e integração
Por Jihan Zoghbi
A Medicina Diagnóstica atravessa um dos momentos mais decisivos e instigantes de sua história. Por muito tempo operamos no setor com excelência técnica, mas frequentemente como uma engrenagem de suporte isolada em etapas muito específicas do cuidado. Hoje, diante da necessidade imperativa por eficiência operacional e do rápido amadurecimento tecnológico, a área está reescrevendo o seu papel dentro do ecossistema de saúde.
Em 2024, o setor de serviços de diagnóstico ultrapassou a marca de 1 bilhão de exames realizados em 2024 em todo o Brasil, segundo dados da Associação Brasileira de Medicina Diagnóstica (Abramed). É um grande volume de informações que nem sempre dialogam entre si.
Historicamente, os sistemas que sustentavam centros de diagnóstico e hospitais foram erguidos de forma fragmentada. O agendamento raramente conversava de forma fluida com o acolhimento; a realização do exame muitas vezes ocorria desconectada do acompanhamento evolutivo do paciente. A evolução do nosso setor, contudo, não tolera mais esses silos. Precisamos de uma abordagem onde a rastreabilidade da informação e a fluidez de toda a jornada do paciente sejam a regra, e não a exceção.
Ao longo da minha trajetória, sempre transitando entre a ciência e a prática clínica, tive a oportunidade de aprofundar o estudo de inteligência artificial aplicada a imagens médicas desde a análise de tumores cerebrais até o acompanhamento evolutivo em imagens 2D e 3D. Essa vivência me mostrou, desde cedo, que o valor da tecnologia não está no algoritmo em si. E agora, quando olhamos para a incorporação da IA no diagnóstico por imagem de forma ampla, precisamos urgentemente separar o entusiasmo mercadológico do impacto prático.
A inteligência artificial deixou de ser uma tendência futurista para se tornar infraestrutura básica. No entanto, o verdadeiro diferencial para as instituições de saúde não está em simplesmente adquirir um algoritmo, mas na forma como ele é inserido no cotidiano médico. A tecnologia que de fato transforma é aquela desenhada para apoiar a decisão clínica, otimizar fluxos de trabalho frequentemente exaustivos e extrair valor preditivo de volumes massivos de dados. O objetivo nunca foi automatizar processos de forma fria, mas sim ampliar a capacidade analítica dos nossos profissionais de saúde, reduzindo variabilidades e garantindo decisões mais ágeis e assertivas.
A Medicina Diagnóstica não pode mais operar como um sistema fragmentado. O futuro pertence às instituições que conseguirem integrar dados, inteligência e experiência clínica de forma fluida e escalável. E essa transformação não é mais uma possibilidade, ela já começou.
*Jihan Zoghbi é Diretora de Medicina Diagnóstica na MV.

