Leucemias agudas e os desafios da jornada do tratamento
Por Philip Bachour
O Fevereiro Laranja é um momento importante para ampliar a conscientização sobre as leucemias, em especial as agudas: doenças graves, potencialmente fatais, mas que hoje contam com avançados recursos diagnósticos e terapêuticos, capazes de oferecer altas chances de cura quando o cuidado acontece de forma adequada e no tempo certo.
De acordo com estimativas oficiais do Instituto Nacional de Câncer (INCA), divulgadas em fevereiro, o Brasil deve registrar cerca de 12.220 novos casos de leucemia por ano no triênio 2026–2028, sendo 6.540 casos em homens e 5.680 em mulheres. Os números mantêm o patamar elevado observado no triênio anterior e reforçam a relevância da doença como um desafio contínuo para o sistema de saúde brasileiro, especialmente quando se considera a complexidade do tratamento das leucemias agudas.
É fundamental entender que as leucemias agudas não são todas iguais. Elas representam um grupo heterogêneo de doenças, com comportamentos, agressividade e respostas ao tratamento muito diferentes entre si. Por isso, o sucesso do tratamento depende de uma jornada estruturada, apoiada em três pilares essenciais: diagnóstico de precisão, acesso às terapias adequadas e tempo.
O primeiro passo para o melhor desfecho é um diagnóstico preciso. Atualmente, não basta apenas identificar a leucemia no microscópio. O avanço da medicina permitiu a incorporação de testes genéticos e moleculares, capazes de identificar mutações específicas da doença.
Essas alterações genéticas são fundamentais para definir o grau de agressividade da leucemia, ajudar a prever o prognóstico do paciente e orientar a escolha do tratamento mais adequado. Com base nessas informações, é possível indicar terapias-alvo, que atuam diretamente nos mecanismos da doença, além de avaliar a necessidade de um transplante de medula óssea como parte da estratégia para consolidar o tratamento.
Apesar de sua importância, muitos desses exames ainda não estão amplamente disponíveis no Brasil. Tanto no Sistema Único de Saúde (SUS) quanto na saúde suplementar, a incorporação de novas tecnologias diagnósticas costumar seguir trajetórias mais longas, influenciadas por avaliações regulatórias, evidência científica acumulada e impacto orçamentário.
Essa distância entre a inovação diagnóstica e sua oferta em larga escala pode impactar diretamente a decisão terapêutica e, consequentemente, o desfecho do paciente.
O segundo pilar é o acesso às terapias modernas, especialmente as chamadas drogas alvo-moleculares. Essas medicações revolucionaram o tratamento das leucemias agudas, aumentando significativamente as chances de remissão e cura, além de, em muitos casos, reduzirem a toxicidade do tratamento.
No entanto, a velocidade da inovação biomédica frequentemente supera a capacidade de incorporação ampla dessas terapias nos sistemas de saúde. Parte desses medicamentos ainda não está disponível na rede pública, e outros seguem processos de incorporação prolongados na saúde suplementar, no âmbito do Rol de Procedimentos e Eventos em Saúde da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS). Estamos falando de tratamentos de alto custo financeiro, com impacto relevante tanto nos orçamentos públicos quanto nos das operadoras de saúde.
Por isso, é fundamental reforçar que essas terapias devem ser utilizadas de forma consciente, criteriosa e baseada em evidências científicas, direcionadas aos pacientes que realmente se beneficiarão delas, algo que só é possível quando o diagnóstico de precisão é realizado adequadamente por equipes multidisciplinares experientes.
O terceiro pilar, não menos importante no desfecho é o tempo, um fator decisivo na leucemia aguda. A jornada do paciente pode ser comparada a uma corrida de regularidade: não basta apenas ser rápido, é preciso estar no lugar certo, na hora certa, com a estratégia correta.
Desde o diagnóstico, o planejamento do tratamento precisa ser imediato. A busca por um doador de medula óssea deve começar precocemente, uma vez que, em grande parte dos casos, já é possível saber se o paciente poderá necessitar de um transplante alogênico. Além disso, a liberação de exames, medicamentos e procedimentos precisa ocorrer de forma ágil, para que o cuidado seja iniciado no tempo adequado.
Na prática, ainda enfrentamos gargalos importantes, como a demora na autorização de tratamentos, a falta de leitos para a coleta de medula óssea de doadores não aparentados e as esperas prolongadas que, muitas vezes, colocam o paciente em uma situação de risco extremo. Em casos de leucemia aguda, semanas, ou até dias, podem significar a diferença entre a vida e a morte.
Desigualdade de acesso: um desafio que impacta desfechos
Um estudo brasileiro publicado em 2025 na revista Blood, da Sociedade Americana de Hematologia, evidenciou de forma clara essa realidade. O periódico analisou dados do Registro Brasileiro de Leucemia Mieloide Aguda, publicação da Associação Brasileira de Hematologia, Hemoterapia e Terapia Celular (ABHH), e demonstrou diferenças marcantes nos desfechos clínicos entre pacientes tratados em serviços públicos e privados.
O estudo evidencia que acesso ao diagnóstico, às terapias modernas e ao tempo adequado de tratamento salva vidas, enfatizando a necessidade de fortalecer toda a jornada do paciente, reduzindo a distância entre o avanço científico e o cuidado efetivamente oferecido à população.
A leucemia aguda pode evoluir de forma silenciosa ou se apresentar com sintomas que, à primeira vista, parecem pouco específicos. Entre os sinais mais frequentes estão cansaço intenso e fraqueza persistente, palidez, febre prolongada ou infecções recorrentes, surgimento de manchas roxas ou sangramentos sem causa aparente, falta de ar, dor óssea e perda de peso involuntária.
Diante da presença desses sintomas, a orientação é buscar avaliação médica o quanto antes, seja em um pronto atendimento ou com um hematologista. O diagnóstico precoce é um fator decisivo para o sucesso do tratamento e para a ampliação das chances de sobrevida.
Mais do que um alerta individual, o tema exige um olhar coletivo. Ampliar o acesso ao diagnóstico de precisão, às terapias mais modernas e garantir tempo adequado de cuidado ao paciente não deve ser tratado como exceção, mas como parte essencial de um sistema de saúde que prioriza vidas.
No Fevereiro Laranja, o debate sobre leucemias agudas reforça a importância de uma jornada de cuidado estruturada, capaz de impactar diretamente os desfechos clínicos e a qualidade de vida dos pacientes.
*Philip Bachour é Hematologista e Coordenador do Serviço de Transplante de Medula Óssea e Terapia Celular do Hospital Alemão Oswaldo Cruz.

