Mesmo após 5 anos da pandemia, não alcançamos o hábito de realizar exames preventivos de câncer
Após cinco anos do início da pandemia de covid-19, o Brasil não avançou nos indicadores de realização de exames preventivos de câncer, demonstrando que a prevenção e o cuidado com a saúde não ficaram como legado da pandemia. Levantamento exclusivo da Umane, organização da sociedade civil, independente, isenta e sem fins lucrativos que fomenta iniciativas no âmbito da saúde pública, feito com base em dados disponíveis no Observatório da Saúde Pública (OSP), mostra que, após queda generalizada na realização de exames preventivos durante a pandemia contra os cânceres colorretal, de mama e do útero, apenas o primeiro registrou recuperação desde 2020, enquanto os demais seguem em baixa.
Segundo Evelyn Santos, gerente de investimento social da Umane, uma das consequências da pandemia foi o represamento de exames de rotina e a despriorização do cuidado com outros agravos além da covid-19, resultando no adiamento de exames de rastreamento e triagem de doenças crônicas, mas é necessária uma mudança de comportamento para a prevenção de todas as doenças. “Os cuidados preventivos contra o câncer no país ainda não registraram, de maneira generalizada, nem diminuição de fatores de risco para seu desenvolvimento – como, por exemplo, o tabagismo, consumo de álcool, inatividade física e alimentação não saudável – nem ampliação das coberturas de triagem e rastreamento segundo os protocolos nacionais vigentes, como o papanicolau, a mamografia e a colonoscopia após o fim da pandemia, o que demanda um esforço público de conscientização da população e, também, garantia de atendimento equitativo para que todos tenham acesso ao exame no tempo adequado. Atuar no fortalecimento da prevenção é a melhor estratégia de qualidade de vida e de saúde pública para o país”.
Colonoscopia
Entre 2019, antes da pandemia, e 2024, o número de colonoscopias realizadas pelo SUS (rede pública e conveniada) em todos os municípios brasileiros cresceu 65,5%, somando 574,6 mil exames, sendo 373,6 mil feitos por mulheres e 201 mil por homens, segundo o levantamento feito pela Umane, com base em dados do DATASUS-SIA, disponíveis no OSP. Em 2019, 347,1 mil colonoscopias foram feitas. Em 2020, como esperado, a quantidade caiu. O total foi de 242,4 mil, com 149,7 mil de mulheres e 92,7 mil de homens.
No entanto, em 2021, o número de exames cresceu para 304,7 mil, com 191,2 mil mulheres e 113,5 mil homens. Vale destacar que este também foi o ano em que começaram a ser distribuídas as vacinas para covid-19 no Brasil.
O número de mulheres com 18 ou mais anos que já fizeram exame de mamografia nas capitais brasileiras caiu antes da pandemia e ainda não registrou recuperação, segundo dados do Vigitel, disponíveis no OSP, da Umane. Em 2007, 51,2% das mulheres adultas já tinham feito mamografia, em 2017 esse número sobe para 66,7% e inicia queda, sendo 59,8% em 2023.
Ao observar a série histórica do Vigitel, no relatório oficial da análise temporal de 2007 a 2023, o percentual de mulheres de 50 a 69 anos de idade que realizaram mamografia nos últimos dois anos, no conjunto das capitais de estados brasileiros e no Distrito Federal, subiu de 71,1% para 73,1% no período, com um pico desta cobertura de 78,5%, no ano de 2017, o que significa que não recuperamos os índices pré-pandemia, e que tivemos variação negativa na cobertura desde 2020.
Além disso, a Umane sinaliza que há coberturas ainda mais baixas fora das capitais, além de desigualdade no acesso entre as regiões do país, conforme comprovado pela Pesquisa Nacional de Saúde, que apontou uma cobertura nesta faixa etária de 58,3% em 2019 no Brasil na totalidade, frente a 54,3% em 2013. No Sudeste, 65,2% dessas mulheres já haviam realizado tal exame nesse intervalo de tempo, enquanto no Norte o percentual foi de 43,2% e, no Nordeste, 49,5%. “Avançar com mais equidade na cobertura da mamografia, em todos os territórios do país, assim como nas regiões metropolitanas e áreas rurais, deve ser uma prioridade na busca pela universalidade do acesso e equidade em saúde”, avalia Evelyn.
Já os exames de ultrassonografia mamária bilateral têm apresentado recuperação após a pandemia, de acordo com dados do DATASUS-SAI, levantados pela Umane. Em 2019, o país registrou recorde da década, com 1,4 milhão de exames realizados em todos os municípios brasileiros. Entre 2019 e 2020, a queda no número desses exames foi de 28,4%, atingindo 984 mil. No entanto, no ano seguinte os exames foram retomados e, entre 2020 e 2024, aumentaram em 92,7%, alcançando, no ano, 1,9 milhão.
Prevenção ao câncer do colo do útero
Os exames preventivos de câncer do colo do útero, papanicolau e colposcopia, não apresentaram ainda retomada após a pandemia. Os exames de papanicolau têm registrado queda nas capitais brasileiras antes mesmo da pandemia, segundo dados do Vigitel. Em 2017, 84% das mulheres residentes nas capitais brasileiras realizaram o Papanicolau ao menos uma vez na vida. Esse número diminuiu ao longo dos anos, sendo 78,9% em 2023.
Ao comparar estes dados com a Pesquisa Nacional de Saúde 2013-2019, a Umane destaca que, mais uma vez, há maior cobertura de prevenção nas capitais avaliadas pelo Vigitel. A Pesquisa Nacional de Saúde registrou um pequeno aumento na cobertura do exame preventivo do câncer do colo do útero, feito há menos de três anos, em mulheres de 25 a 64 anos, entre 2013 (78,7%) e 2019 (81,3%) e redução de 9,7% para 6,1% na proporção de mulheres que nunca fizeram o exame. Fatores como raça branca, maior escolaridade, maior renda, residência nas regiões Sul e Sudeste influenciaram positivamente este indicador, ao mesmo tempo que, dentre os motivos mais frequentes para não realizar o exame, apareceram ‘achar desnecessário’ (45% em 2013 e em 2019) e ‘nunca ter sido orientada a fazê-lo’ (20,6% em 2013 e 14,8% em 2019).
Segundo a Umane, este cenário demonstra a complexidade do incentivo às ações de prevenção, assim como a necessidade de uma abordagem focada na redução das desigualdades do acesso a estes exames pelas mulheres em situação de vulnerabilidade, evitando que tenham maior risco de vir a óbito no futuro por uma doença evitável, tanto por existir uma vacina disponível, quanto pela oportunidade de realização do diagnóstico precoce. “Estratégias que envolvam tanto a conscientização da população, quanto uma abordagem de captação mais proativa, com organização mais eficiente dos processos de trabalho e encaminhamento dentro do sistema de saúde, têm se provado mais efetivas no atingimento de maiores coberturas populacionais nos exames preventivos do câncer”, destaca Evelyn.