Exame nacional de medicina é um compromisso com a vida
O Brasil assiste, em ritmo vertiginoso, a uma verdadeira explosão de faculdades de medicina. Mais de 50 mil novos médicos recebem diploma a cada ano, mas a pergunta que se impõe é inevitável: estamos formando profissionais preparados para cuidar da população ou apenas inflando estatísticas com títulos acadêmicos?
Dados da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) revelam a dimensão do fenômeno: em apenas uma década, o número de escolas médicas saltou de 252 para 505. Com isso, o país tornou-se o segundo do mundo em número absoluto de cursos, atrás apenas da Índia. E, proporcionalmente à população, já ultrapassamos os indianos — um sinal claro de que não se trata de crescimento pontual, mas de uma transformação estrutural que merece ser debatida com seriedade.
O crescimento das vagas de medicina, impulsionado pela interiorização e pelo setor privado (responsável por cerca de 77% das vagas), ampliou o acesso e diversificou o perfil dos estudantes, mas trouxe desafios importantes: cerca de 6.500 vagas foram criadas em cidades com menos de 100 mil habitantes, muitas sem infraestrutura adequada para a formação prática. Segundo o Conselho Federal de Medicina (CFM), 78% dessas cidades não atendem aos requisitos mínimos de estrutura, 62% não têm hospital de ensino e 35% carecem de equipes de saúde da família suficientes, comprometendo a vivência clínica supervisionada dos futuros médicos e a qualidade do atendimento.
As consequências são graves. Médicos recém-formados chegam ao mercado com experiência prática insuficiente, formação deficiente e, muitas vezes, sem supervisão adequada de especialistas. Esse cenário coloca em risco a saúde da população e fragiliza a confiança na relação médico-paciente.
Solução
O Exame Nacional de Proficiência em Medicina (Profimed) surge como resposta institucional à crise da formação médica no Brasil, tornando-se obrigatório para obtenção do registro profissional no Conselho Federal de Medicina, conforme o Projeto de Lei nº 2.294/2024 aprovado no Senado. Aplicado semestralmente pelo CFM, o exame se propõe a avaliar conhecimentos teóricos, habilidades clínicas e conduta ética, seguindo as Diretrizes Curriculares Nacionais. A obrigatoriedade será válida apenas para estudantes que ingressarem após a promulgação da lei, resguardando direitos adquiridos.
No debate sobre avaliação da formação médica, o Profimed é defendido como certificação individual, enquanto o Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed) se volta à avaliação institucional e pedagógica. Embora o modelo híbrido tenha sido alvo de críticas por possível duplicidade e burocracia, chegou-se a um consenso: o Profimed certifica a proficiência individual para registro, e o Enamed monitora o desempenho institucional, contribuindo para a melhoria dos cursos e evitando sobreposição de funções.
Com esta perspectiva, o Profimed se consolida como um verdadeiro divisor de águas. Seu propósito é assegurar que apenas profissionais devidamente preparados — em conhecimento, prática clínica e ética — tenham acesso ao mercado, elevando o padrão da saúde e fortalecendo a confiança da sociedade.
Responsabilidade compartilhada
O debate sobre a formação médica precisa ser ampliado e envolver instituições de ensino, órgãos reguladores, profissionais de saúde, estudantes e sociedade. É essencial investir em políticas públicas que fortaleçam a qualificação docente, ampliem a infraestrutura hospitalar e integrem ensino e prática clínica. Um sistema robusto de fiscalização das escolas médicas, aliado a instrumentos como Enamed e Profimed, pode criar um ambiente mais transparente e orientado para a excelência.
A responsabilidade pela qualidade da formação não deve recair apenas sobre o aluno. Instituições, governo e sociedade precisam compartilhar esse compromisso para garantir que cada novo médico esteja preparado para exercer uma medicina ética, humanizada e tecnicamente competente.
O exame deve integrar um sistema abrangente de avaliação, que contemple estágios supervisionados de qualidade, avaliações práticas e, sobretudo, a responsabilização das instituições que não oferecem ensino compatível.
Compromisso com a vida
Defender o Profimed é defender a vida, a ética e a qualidade. Mas é preciso ir além: exigir responsabilidade compartilhada, investimentos estruturantes e fiscalização rigorosa. Só assim o exame se tornará um verdadeiro símbolo de confiança e excelência para toda a sociedade.
Ética, qualidade assistencial e segurança do paciente são valores inegociáveis. A formação médica sem requisitos mínimos compromete vidas, e o exame é uma resposta necessária a esse desafio.
*Luciana Shimizu Morya é fundadora da plataforma INKI.

