Ética médica: do juramento à prática

Por Antonio Carlos Lopes

Crises assustam, mas transformam. A prática da medicina está em plena sincronia com os valores e pensamentos dos cidadãos. A propósito, ambos estão sujeitos a constantes mudanças e reformas. A “revolução” provocada pela Covid-19 na saúde, na economia e no modo de viver da população acelerou esse processo. A medicina tem de acompanhar o ritmo para atender às demandas que se nos surpreendem a cada dia.

Enfrentamos dilemas sobre a flexibilização da quarentena, a prioridade de atendimentos nos centros de saúde lotados, a implantação da Telemedicina ao redor do país, enfim. Qualquer tomada de decisão nesses tempos excepcionais reflete não apenas os princípios fundamentais da ética em saúde pública, mas, especialmente, da ética médica.

Nesse momento, o compromisso que assumimos no Juramento de Hipócrates é posto à prova. Uma medicina íntegra, exige ter em mente o que a promessa feita ao fim da graduação significa na prática.

O primeiro artigo do Código de Ética Médica sintetiza os principais compromissos de nossa profissão. Ser médico é estar a serviço da saúde do ser humano e da coletividade, sem qualquer tipo de discriminação. A integridade está na honradez, amor e respeito ao próximo, princípios fundamentais da Medicina.

Não podemos e nem devemos deixar nossos pacientes em mãos de uma visão mercantilista, cujo bem mais precioso é o capital. “O alvo de toda a atenção do médico é a saúde do ser humano”, diz o segundo artigo do Código. E assim permanecerá, não importa a situação. O cuidado e a capacidade profissional são indispensáveis, sempre tendo a ética na essência da Medicina.

Em um contexto de incertezas, essa é a nossa convicção: a de se erguer frente às precariedades do sistema público de saúde, às dificuldades impostas aos serviços assistenciais durante a pandemia e a todos aqueles mal-intencionados que se aproveitam do momento para tirar vantagens às custas da vida humana.

É preciso ter consciência da responsabilidade que carregamos em nossos ombros. Com sabedoria e bom senso, seremos capazes de enfrentar essa tempestade sem perder a direção da ética médica.


*Antonio Carlos Lopes é presidente da Sociedade Brasileira de Clínica Médica