Enchentes expõem os riscos de hospitais que dependem do papel
Por Iomani Engelmann
As chuvas que atingiram Minas Gerais na última semana não destruíram apenas estruturas físicas. Em hospitais afetados, a água levou também prontuários de pacientes — histórias clínicas, exames, evoluções médicas, tudo o que estava no papel se perdeu. Em poucas horas, anos de informação assistencial ficaram ilegíveis.
Eventos climáticos extremos deixaram de ser exceção no Brasil. Enchentes no Sul, deslizamentos na Região Sudeste, estiagens severas no Centro-Oeste. A recorrência indica que não estamos diante de episódios isolados. Se sabemos que vai acontecer de novo, a pergunta não é “se”, mas “como estaremos preparados quando acontecer?”.
Hospitais são, por definição, estruturas críticas, ou seja, precisam continuar funcionando mesmo quando a cidade ao redor para. Mas há um ponto vulnerável que ainda passa despercebido em muitas instituições: a dependência do papel.
Prontuários físicos são frágeis. Queimam, molham, rasgam, desaparecem. Não têm cópia automática, não podem ser acessados remotamente, não resistem a desastres ambientais. Quando uma enchente atinge um hospital que opera majoritariamente com arquivos físicos, o dano não termina quando a água baixa. Ele se prolonga na descontinuidade do cuidado, na repetição de exames, na perda de histórico clínico e no aumento do risco para o paciente. Fazer a digitalização de prontuários e adotar sistemas em nuvem são estratégias de resiliência.
Sistemas hospitalares baseados em nuvem permitem que as informações estejam armazenadas em ambientes seguros, com redundância, backup automático e protocolos rigorosos de proteção de dados. Ter a infraestrutura em nuvem serve para restaurar ambientes não somente em calamidades físicas, como as enchentes, mas também diante de ataques cibernéticos ou demais situações.
Mesmo que a infraestrutura física da instituição seja comprometida, os dados permanecem íntegros e acessíveis. O hospital pode realocar equipes, operar provisoriamente em outro espaço ou compartilhar informações com unidades de apoio sem que o histórico dos pacientes desapareça.
Além da preservação, há a continuidade. Em situações de emergência, o acesso rápido ao histórico médico (alergias, comorbidades, medicações em uso) pode ser decisivo. Quando a informação está organizada e disponível digitalmente, a tomada de decisão é mais segura, mesmo em cenários de crise.
Ainda, existe a percepção de que a transformação digital é um projeto voltado à eficiência operacional ou à experiência do paciente em tempos de normalidade. Mas os últimos acontecimentos mostram que a tecnologia precisa ser pensada também como infraestrutura crítica, da mesma forma como geradores de energia ou sistemas de abastecimento de água.
Hospitais que operam com dados estruturados conseguem, inclusive, responder melhor às próprias emergências coletivas. É possível mapear rapidamente pacientes de risco, identificar grupos vulneráveis, organizar transferências, compartilhar informações com autoridades sanitárias e manter a rastreabilidade dos atendimentos. O papel, nesses contextos, simplesmente não escala.
É claro que digitalizar não é trivial. Exige investimento, planejamento, treinamento e adequação à Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD). Mas o custo de não investir na tecnologia tende a ser maior e, como vimos, pode ser irreversível.
O Brasil vive um momento em que eventos extremos estão testando a infraestrutura de diversas áreas. Na saúde, o teste é ainda mais sensível porque envolve vidas. Se as mudanças climáticas impõem um novo cenário de risco, a gestão hospitalar precisa incorporar esse fator ao seu planejamento estratégico. Se trata de reconhecer que a informação clínica é um ativo essencial e que sua preservação é parte do cuidado.
Quando a chuva leva embora o papel, ela expõe o atraso de um modelo que ainda depende do físico para guardar o que deveria estar protegido digitalmente. Se sabemos que novas enchentes virão, talvez a verdadeira pergunta seja: vamos continuar deixando que a água leve embora esses dados ou vamos tratar a informação como o que ela é, um pilar da segurança assistencial?
*Iomani Engelmann é co-CEO da Pixeon.

