Eficiência e interoperabilidade devem orientar saúde em 2026
Por Roberto Ribeiro
À medida que o setor de saúde atravessa um período intenso de transformação tecnológica, o consenso entre gestores e especialistas é de que 2026 será marcado menos pela adoção de tecnologias futuristas e mais pela consolidação de modelos operacionais focados em eficiência. Embora inteligência artificial (IA), machine learning e automação clínica continuem avançando, o elemento central para os próximos anos será a capacidade dessas tecnologias de resolver gargalos cotidianos e não apenas figurar como inovação conceitual.
Hoje, a saúde convive com uma realidade paradoxal: há abundância de ferramentas digitais disponíveis, mas ainda persistem falhas básicas de integração de dados, redundância de processos e dificuldades de implementação. Nesse contexto, a eficiência operacional surge como eixo estratégico, deslocando o debate da “tecnologia pela tecnologia” para a mensuração objetiva de impacto em indicadores-chave como tempo de diagnóstico, custo assistencial, taxa de absenteísmo e ocupação hospitalar.
Interoperabilidade
Um ponto crítico para 2026 será a evolução da interoperabilidade entre os diversos agentes do ecossistema: hospitais, laboratórios, clínicas, operadoras e dispositivos de monitoramento pessoal. Sem integração fluida entre sistemas, a IA permanece limitada à análise fragmentada de informações, restringindo seu potencial de suporte clínico e preditivo.
A expectativa para os próximos anos é que reguladores, fornecedores de tecnologia e instituições de saúde acelerem acordos de padronização, viabilizando o fluxo seguro e contínuo de dados entre plataformas heterogêneas. Esse avanço é fundamental para viabilizar linhas de cuidado inteligentes, histórico clínico consolidado e maior assertividade diagnóstica.
Tecnologia orientada à realidade operacional
Um dos movimentos que deve ganhar força é a substituição de investimentos em soluções isoladas, muitas vezes deslumbrantes em demonstração, mas ineficazes na prática, por tecnologias que atacam pontos críticos reais do setor, como: filas de espera, repetição de exames, falhas de registro clínico, rotinas administrativas redundantes, sobrecarga de equipes assistenciais, desperdício de tempo operacional.
A adoção tecnológica passa a ser medida não pelo grau de sofisticação, mas pelo retorno prático. Hospitais que conseguem reduzir o tempo médio de emissão de laudos com apoio de IA ou que reorganizam fluxos assistenciais com base em análise preditiva caminham para uma saúde mais ágil, econômica e eficiente.
Sustentabilidade financeira do sistema
Outra tendência é a consolidação de modelos de remuneração baseados em valor, nos quais o pagamento deixa de estar vinculado ao volume de procedimentos e passa a considerar os desfechos clínicos. Nesse cenário, tecnologias que elevam custos sem impacto real na qualidade da assistência tendem a perder espaço.
A pressão econômica sobre clínicas, hospitais e operadoras continuará intensa. Ferramentas digitais que reduzem desperdício, evitam retrabalho e dão suporte à tomada de decisão terão vantagem competitiva e se tornarão mandatórias na gestão operacional.
Capacitação e aceitação profissional
Por fim, um vetor determinante para a transformação digital é o fator humano. Persistem resistências culturais em parte da comunidade médica, especialmente quando a IA é percebida como ameaça de substituição. Para 2026, a tendência é que essa percepção se transforme gradualmente, à medida que a IA se consolida como ferramenta auxiliar, capaz de ampliar a capacidade clínica e otimizar tempo, e não de suplantar o julgamento profissional.
O desafio não é apenas estrutural ou tecnológico, é também cultural, organizacional e formativo.
*Roberto Ribeiro é co-CEO e fundador da Pixeon.

