Doenças evitáveis ainda são a maior ameaça para longevidade

Por Adelson Alves

O exercício da medicina me levou pelos caminhos do empreendedorismo logo cedo. Pouco depois de concluir a faculdade na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), cheguei a São Paulo para estagiar no Hospital das Clínicas e por ali comecei minha trajetória profissional consolidada na oncologia.

São mais de 50 anos acompanhando a luta da ciência para livrar da morte milhares de pacientes. Tive a alegria de ver alguns entrar na tão sonhada remissão da doença, mas a maioria não tem a mesma sorte e, portanto, infelizmente, tive de me habituar com a finitude da vida de forma intensa. Ver pessoas partirem, muitas vezes precocemente, não é algo que para mim, ainda que médico, se tornou trivial. O amor de alguém está partindo e isso sempre me tocará profundamente como ser humano.

A ciência avança com a descoberta de terapias que têm representado sucesso no tratamento de cânceres que antes eram sentença de morte rápida, em poucos meses. No entanto, dados do INCA (Instituto Nacional de Câncer) estimam que o Brasil registrará 781 mil novos casos de câncer por ano no triênio 2026-2028.

Então, a pergunta que fica é: se a ciência tem avançado, por que o câncer continua tão presente nos desafios do dia a dia dos profissionais da saúde? A resposta aponta para algo simples que ainda não conseguimos alterar como cultura, mas que precisa entrar nas pautas urgentes: o estilo de vida.

A Agência Internacional para Pesquisa em Câncer (Iarc, na sigla em inglês), ligada à Organização Mundial da Saúde (OMS) e sediada em Lyon, na França, divulgou pesquisa na qual foi detectado que mais de 40% dos casos da doença no Brasil poderiam ser evitados e estão ligados a hábitos não saudáveis como o consumo de álcool, tabagismo e obesidade.

Longevidade

Arrisco a dizer que a tão sonhada longevidade que hoje já realidade no Brasil, onde até 2030 estima-se aumento de 46% da população com idade acima de 60 anos, só poderá ser desfrutada com qualidade por aqueles que imediatamente se atentarem para a necessidade de gerenciá-la desde muito cedo. Precisamos eleger a saúde como propósito e não um problema que pode ser contornado pelos avanços da medicina, caso algo dê errado.

Não se trata apenas de adotar filosofia de vida saudável, mas de práticas que precisam de mudanças urgentes caso queiramos evitar que, num futuro próximo, tenhamos uma população formada por maioria de pessoas idosas enfermas.

Publicação recente no portal da Agência do Brasil informou sobre a nova diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD), que passou a recomendar que crianças a partir dos 10 anos também sejam testadas para a doença, principalmente aquelas com excesso de peso, que fazem poucas atividades físicas e que têm histórico familiar da doença.

Nossos jovens estão se alimentando cada vez pior, dormindo mal e se expondo a longos períodos a telas de celular. Isso tudo gera toxidades imediatas e também de longo prazo para o corpo e a mente, com grandes chances de desenvolver doenças crônicas como a hipertensão, diabetes e também o câncer.

Soma-se a isso, o alerta trazido por estudos do National Health and Nutrition Examination Survey mostrando que, entre adultos de 18 a 39 anos, 7,3% já apresentam hipertensão e 8,8% têm colesterol alto. Os dados revelam ainda que 26,9% possuem pressão arterial em níveis elevados e 21,6% têm colesterol considerado limítrofe, muitas vezes sem diagnóstico.

Pesquisas e a realidade empírica provam que temos de quebrar o paradigma do modelo tradicional dos cuidados da doença, para investirmos na otimização do nosso maior patrimônio que é a saúde.

Uma vida longa de nada adianta se não tivermos a vitalidade necessária para aproveitá-la. A saúde precisa estar entre nossos propósitos de vida e isso se reflete nas nossas escolhas mais simples do dia a dia como ter um sono tranquilo e reparador.

No campo da saúde mental, cultivar um propósito para levantarmos da cama todos os dias é um dos motivos mais eficazes que existem para a saúde, pois faz com que mente e corpo trabalhem em sintonia. É assim, com a mudança do estilo de vida voltado para a disciplina, com foco na prevenção de doenças evitáveis, que podemos construir uma jornada para a longevidade na qual o que menos importará será a idade cronológica.


*Adelson Alves é médico e fundador do Grupo São Lucas.

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