Doença Renal Crônica: um gigante que insistimos em ignorar
Por Farid Samaan
Pacientes, gestores e profissionais de saúde testemunham diariamente os desafios impostos pela Doença Renal Crônica (DRC). É com profunda sensação de urgência que se confirma uma constatação global: a DRC é uma das doenças crônicas não-transmissíveis mais negligenciadas do mundo. Essa negligência perpassa governos, profissionais de saúde e a própria população. No Brasil, essa realidade se desenha de forma ainda mais alarmante, conforme revelado por uma pesquisa nacional encomendada pela Vantive Brasil, que trouxe à tona um cenário de risco iminente, permeado por medo, desinformação e barreiras de acesso.
Um dos aspectos mais críticos que observamos é o baixo conhecimento da população sobre a DRC, seus sintomas, fatores de risco e tratamentos. Poucas pessoas reconhecem que esta é uma doença silenciosa em suas fases iniciais, progredindo muitas vezes sem sintomas óbvios até estágios avançados. Esse desconhecimento é perigoso. A pesquisa, realizada pela Brazil Panels em março de 2026 com 2.000 brasileiros, é um espelho contundente dessa realidade: 67,7% dos entrevistados admitem adiar exames preventivos e, o mais preocupante, é que 20,3% sequer sabem avaliar seu próprio risco de ter doença renal crônica.
Percebemos, por exemplo, que a dor nas costas foi apontada pelos participantes da pesquisa como um dos principais sintomas de doença renal. Em verdade, a maioria das pessoas com dores nas costas possuem afecções da coluna vertebral ou da musculatura em seu entorno. Os rins podem doer basicamente em casos de infecção urinária ou cálculos urinários, as famosas “pedras nos rins”. No entanto, menos de 5% dos casos de DRC são causados por essas patologias renais .
Isso quer dizer que a DRC não causa dor na maioria dos casos e seu diagnóstico precoce somente poderá ser feito a partir da dosagem de creatinina no sangue e da pesquisa de proteínas na urina. Esses dois exames são simples, baratos e amplamente disponíveis, mas foram pouco valorizados pelos participantes da pesquisa. O levantamento revelou que apenas 33% dos entrevistados conhecem a importância da creatinina e 64% a do exame de urina. Muitos relataram não realizar exames de rotina por falta de recursos financeiros, mas é importante destacar que é possível realizar esses exames no Sistema Único de Saúde (SUS).
O Triunvirato do Risco: obesidade, hipertensão e diabetes
A epidemia global de DRC é, em grande medida, causada pelo aumento da prevalência de obesidade e pela elevação da expectativa de vida. Ambos os fatores colaboram para o aumento das taxas de hipertensão e diabetes, que são os maiores vilões para a saúde renal. A pesquisa reforça essa correlação: 39,1% dos participantes afirmaram ser sedentários e, entre eles, 8,8% disseram ter doença renal, contra 5,4% entre os praticantes de atividade física. Além disso, os sedentários apresentam maiores frequências de hipertensão (30% vs. 19,7%), diabetes (17,1% vs. 13,3%) e problemas de circulação (11,3% vs. 7,5%).
Não podemos esquecer da hidratação. Embora a ingesta adequada de água seja crucial para prevenir infecções urinárias e pedras nos rins, mais de 53% da população ainda não se hidrata de forma adequada – um hábito simples que, se negligenciado, pode agravar outros problemas renais e sistêmicos.
Analisando pelo lado do sistema de saúde, estamos falando de uma doença que, em estágios avançados, impacta profundamente o orçamento. Cerca de 10% dos adultos brasileiros possuem algum grau de DRC . As pessoas com as fases avançadas, que representam de 0,05% a 0,1% da população, consomem entre 5% e 10% de todo o orçamento da saúde das nações . Com mais de 170 mil pacientes em tratamento dialítico no país , e cerca de 80% financiado pelo SUS, fica claro o peso social e econômico dessa condição.
Outro resultado importante da pesquisa foi o limitado conhecimento das pessoas sobre as terapias renais substitutivas, isto é, sobre os tratamentos para quem perdeu completamente a função dos rins. O levantamento mostra que, embora 93,4% dos entrevistados já tenham ouvido falar em hemodiálise (HD), a maioria (59,5%) nunca ouviu falar em diálise peritoneal (DP), e apenas 9,8% afirmaram conhecê-la bem. A HD, embora vital para muitos pacientes, é um procedimento extracorpóreo que exige do paciente a ida a uma clínica três vezes por semana, onde ele permanece por cerca de quatro horas. A DP, por outro lado, utiliza o peritônio como filtro natural e é realizada no domicílio do paciente, na maioria das vezes durante o sono, com mais flexibilidade e autonomia, permitindo maior convívio social e mais oportunidade para estudo, trabalho e viagens. Ensaios científicos repetidamente demonstraram que a DP apresenta resultados clínicos iguais ou superiores aos da HD, mas está associada com melhor qualidade de vida e menor impacto na rotina dos pacientes.
Os participantes da pesquisa, quando questionados sobre suas preocupações com a diálise, citam o impacto na qualidade de vida (57,5%), o acesso ao tratamento adequado (38,8%), o custo (38,6%) e a dependência de máquinas e profissionais (37,2%). Se há uma alternativa como a DP, que pode aliviar muitas dessas preocupações, nosso dever como profissionais e sistemas de saúde é garantir que essa informação e acesso cheguem a todos.
O caminho a seguir: transformar medo em ação
A correção dessas discrepâncias exige um esforço conjunto e contínuo. Precisamos de campanhas governamentais robustas, com o apoio indispensável de sociedades científicas e instituições de ensino, para elevar o conhecimento da população sobre as doenças renais. É nosso papel, também, implementar mecanismos de avaliação e controle da assistência à DRC, garantindo que as ações e investimentos em prevenção, hemodiálise, diálise peritoneal e transplante renal sejam proporcionais e eficientes.
Nosso desafio é transformar medo em ação, informação em decisão e prevenção em hábito. O SUS, do qual dependem exclusivamente 75% da população brasileira, é uma ferramenta poderosa. Devemos otimizá-lo para que a jornada do paciente renal seja marcada por informação, autonomia e dignidade. A DRC é um gigante silencioso, mas com o conhecimento certo e ações coordenadas, podemos – e devemos – enfrentá-lo e permitir vidas mais longas e com qualidade para nossos cidadãos.
*Farid Samaan é Médico Nefrologista e Membro do Grupo de Planejamento da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo.

