Uma conversa franca sobre a dignidade no envelhecer

Por Felipe Vecchi

Há temas que parecem pesados à primeira vista, como incapacidade, fim da vida, institucionalização do idoso. Mas que, quando ditos com honestidade e delicadeza, revelam algo completamente diferente: cuidado, liberdade e proteção.

O Brasil envelhece em ritmo acelerado. Até 2050, a previsão do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) é de que 37,8% da população brasileira serão de pessoas 60 anos ou mais. Junto com a longevidade, cresce a urgência de conversas que antes eram evitadas, empurradas para “quando for preciso”. Só que esperar a emergência chegar tem custado caro para muitas famílias.

Falar de cuidados paliativos e institucionalização para idosos não é falar de desistência. É falar de protagonismo. É garantir que as escolhas de uma pessoa continuem valendo mesmo quando ela já não puder expressá-las com a mesma clareza.

Autocuratela: o idoso escolhe antes que alguém escolha por ele

Recentemente, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) editou normativa do Provimento nº 206, que atualiza o Código Nacional de Normas do Foro Extrajudicial (CNN/CNJ-Extra) e estabelece novas diretrizes voltadas à valorização da autocuratela e das diretivas antecipadas de vontade no sistema notarial e registral brasileiro.

Estabelece, pela primeira vez, diretrizes nacionais para a autocuratela, por meio de um documento simples, feito em cartório, em que qualquer pessoa maior de 18 anos pode registrar quem deseja que cuide de sua saúde e patrimônio caso se torne incapaz de tomar decisões.

É um gesto de autonomia e dignidade e, sobretudo, de lucidez. O instrumento protege contra conflitos familiares, violência patrimonial e decisões tomadas às pressas. É, em essência, uma forma oficial de dizer: “Se um dia eu não puder decidir, quero que minha vontade seja respeitada.”

Cuidados paliativos: aliviar sofrimento é continuar cuidando até o fim

Poucos temas enfrentam tantos equívocos quanto os cuidados paliativos. Muita gente ainda acredita, erroneamente, que eles são acionados apenas na proximidade da morte.

O estudo World Health Organization: Palliative Care Definition Update (2023) reforça que cuidados paliativos não aceleram a morte, não substituem tratamentos e não significam abandono. Ao contrário, eles melhoram sintomas, reduzem sofrimento físico e emocional e ampliam qualidade de vida.

Outras pesquisas, publicadas no New England Journal of Medicine, mostram que, em pacientes com doenças crônicas avançadas, cuidados paliativos precoces aumentam sobrevida, reduzem internações e diminuem depressão familiar.

Os paliativos não falam de morte, falam de vida. Falam de conforto, de presença, de escolhas respeitadas. Falam em permitir que cada pessoa viva o tempo que tem com sentido, autonomia possível e acolhimento. Afinal, cuidar bem é aliviar, escutar e respeitar os limites de cada corpo e as histórias de cada alma.

Institucionalização sem tabu: quando residenciais são o cuidado

O receio de “colocar um idoso em uma instituição” ainda é grande no País. Mas a realidade mudou e a sociedade precisa atualizar seus símbolos.

Residenciais modernos são centros de cuidado especializado, convivência, estimulação cognitiva, segurança, vida social e assistência 24 horas feita por profissionais especializados e experientes. Para muitas famílias, eles são a diferença entre segurança e risco, solidão e convívio, improviso e dignidade.

Estudos da Journal of the American Geriatrics Society mostram que ambientes estruturados reduzem quedas, descompensações e uso inadequado de medicamentos. No Brasil, a Universidade de São Paulo (USP), ao lado da Fiocruz, publicou estudos que revelam menor sobrecarga emocional dos cuidadores familiares quando há apoio profissional.

A institucionalização, quando bem indicada, não é sinônimo de abandono e sim uma rede de apoio, exatamente o que faz falta para a maioria das famílias que tentam cuidar sozinhas de seus idosos não autônomos ou familiares em transição.

É cuidado flexível e planejado, que deveria ser encarado sem culpa.

A ética da escolha: planejar é um ato de amor

Quando falamos sobre envelhecer não estamos abordando apenas a biologia. Falamos de vínculos, sonhos, fragilidades, medos e pertencimentos.

Planejar o cuidado, escolhendo um curador, definindo preferências de tratamento, discutindo opções de moradia e decidindo como e por quem se deseja ser cuidado é, antes de tudo, uma forma de dizer: “Minha vida continua sendo minha, mesmo quando eu precisar de ajuda.”

E, para quem ama, é a tranquilidade de saber que está honrando o que o outro queria e não “o que sobrou” diante da urgência. Cuidar não é ocupar o lugar do outro, é ajudar para que ele siga sendo quem sempre foi e tendo suas escolhas respeitadas.

Envelhecer é, sobretudo, continuar sendo autor da própria história – ou deveria ser. O direito de escolher onde viver, quem estará ao lado, como deseja ser cuidado, não pode desaparecer à medida que os anos avançam. Pelo contrário, é justamente no final da vida que essas escolhas ganham mais brilho, mais urgência, mais verdade.

Planejar o cuidado não é falar sobre finitude, mas sobre liberdade. É garantir que cada pessoa possa seguir vivendo com dignidade, afetos preservados e vontade respeitada.

Quando a voz enfraquecer, que suas decisões, registradas e honradas, continuem ecoando e guiando a jornada com a mesma delicadeza e firmeza que sempre marcaram seu caminho.


*Felipe Vecchi é médico geriatra e diretor médico e operacional da BSL Saúde

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