Publicação analisa confiança em diagnósticos online

Ao se depararem com problemas de saúde, 26% dos brasileiros usam o serviço de busca do Google como primeira opção de pesquisa. Essa estatística, apresentada pelo jornal O Estado de S. Paulo em reportagem publicada em 2019, foi um dos dados que embasou a pesquisadora e psicanalista Ana Augusta Monteiro, em seu mestrado sobre a confiança que é depositada por usuários da internet em diagnósticos online. A pesquisa agora está disponível no livro “Diagnóstico online: quando a internet substitui a clínica” (Editora Dialética, 96 p.).

A obra investiga, de forma interdisciplinar, a história da instituição do diagnóstico médico e sua contraposição a clínicas que têm a linguagem como protagonista – caso da psicanálise e da clínica de linguagem. A pesquisa se desenvolve a partir da contribuição de autores como Michel Foucault, Georges Camguilhem, Jacques Lacan, Sigmund Freud e Elizabeth Roudinesco. “No entanto, o autor principal que me ajudou a construir um argumento foi Jean Clavreul, com seu livro ‘A Ordem Médica: poder e impotência do discurso médico'”, conta a autora. Clavreul foi psiquiatra e psicanalista e seu livro foi tão relevante que ganhou um capítulo inteiro na obra de Monteiro.

A pesquisa que deu origem ao livro foi desenvolvida dentro do grupo de pesquisa Aquisição, patologias e clínica de linguagem, na PUC-SP, coordenada pela professora Maria Francisca Lier-De Vitto, que assina o prefácio da obra. Lier-De Vitto foi orientadora de Ana Augusta Monteiro no mestrado em Linguística Aplicada e Estudos da Linguagem, na mesma instituição. Os temas centrais da obra são diagnóstico online em substituição ao diagnóstico clínico; a adesão do “usuário” ao diagnóstico online; discurso médico sob uma visada psicanalítica; e diagnóstico psicanalítico.

Motivação veio do atendimento em consultório

A ideia de pesquisar o tema surgiu de sua própria atuação como psicanalista, no atendimento em consultório. De acordo com ela, cada vez mais aparecem relatos inquietantes de analisantes sobre suas relações com o mundo e a lógica das plataformas digitais. “O analisante traz um diagnóstico no qual se encaixa e incorpora, mas que conseguiu no Google. Muitas vezes, essa pessoa aceita este diagnóstico da máquina como um fato”, relata Monteiro.

Observar que cada vez mais pessoas aderem a esse diagnóstico anônimo – e confiam no resultado baseado em uma listagem de sintomas elencados por uma máquina – foi um incômodo que levou Monteiro a se aprofundar na utilização da tecnologia na busca de respostas sobre questões de saúde e, em especial, sobre o uso de serviços de busca online para identificar sintomas e recolher diagnósticos médicos. “Recebi pessoas em busca de atendimento psicanalítico, que chegavam com a certeza de terem diagnósticos de ansiedade, depressão, bipolaridade, hiperatividade, por exemplo, recolhidos através de mecanismos de busca na internet como Google e Bing”.

A pesquisadora explica que esses diagnósticos são obtidos a partir da inclusão de sintomas, como palavras-chave, recebendo em retorno uma lista de sites que pode incluir várias fontes: páginas de clínicas, hospitais, médicos e blogs dos mais variados tipos. No livro, são abordadas questões como a diferença entre diagnóstico médico e diagnóstico de linguagem; questões ligadas ao saber médico; o diagnóstico psicanalítico e algumas breves pontuações a respeito da ética. A transformação do sujeito paciente em objeto de consumo, ou mercadoria, também é um dos pontos analisados.

Monteiro ressalta que os serviços de busca aferem ganhos por meio de anúncios e, em geral, os conteúdos de anunciantes recebem prioridade nas respostas de pesquisas oferecidas. “O modelo de negócios dessas empresas é aquele no qual o produto oferecido são os bilhões de usuários que têm sua privacidade exposta e negociada entre os donos do Capital. Em poucas palavras: os clientes são os anunciantes e os usuários são produtos”.

A autora tem uma experiência pregressa em empresas de tecnologia da informação, o que também a leva a discutir o funcionamento dos algoritmos. “A partir dessa experiência, sei, por exemplo, que esse ‘diagnóstico’ é viabilizado por um algoritmo baseado em pesquisas realizadas em milhões, talvez bilhões, de arquivos que contenham uma ‘palavra-chave’, e pesquisas nem sempre alimentadas por profissionais da área de saúde”, afirma.

Pesquisas de saúde online

A originalidade da obra de Monteiro, na esteira de trabalhos que avaliam o diagnóstico online em saúde, mais do que como um diagnóstico fora da clínica poderia favorecer a relação médico-paciente, é refletir como os resultados dessas pesquisas podem afetar a clínica. O livro destaca o quão intrigante é o fato de que o “diagnóstico entregue por uma máquina possa ser acolhido pelo doente com a confiabilidade de um diagnóstico médico”.

Para embasar a pesquisa, Monteiro analisou quatro artigos científicos – dois nacionais e dois internacionais – e a referida reportagem do caderno Saúde do jornal O Estado de S. Paulo. A matéria ainda afirma que o Brasil foi o país onde houve maior crescimento de buscas com o tema saúde, comparado ao restante do mundo no ano de 2018, e esse crescimento também foi maior que a média em relação a todos os outros temas buscados dentro do Brasil.

Nos artigos científicos, a análise da pesquisadora apura como o diagnóstico recolhido via Google – antes de uma visita ao médico – influencia o comportamento dos pacientes durante a consulta. Também avalia a assertividade dos programas de diagnóstico online e verifica que nem a metade deles oferecem informações corretas.

Outra análise da pesquisadora se baseou em artigo que aborda a pesquisa online de três doenças com grande incidência no Brasil: diabetes mellitus, hipertensão arterial sistêmica e infarto agudo do miocárdio. Nessa análise, o objetivo foi investigar a qualidade das informações disponíveis nos serviços de busca online. A pesquisa concluiu que a informação disponível na internet em português sobre as três doenças escolhidas é, frequentemente, inadequada e insuficiente.

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