Diabetes além da glicose: por que a gestão do cuidado ainda falha
Por Lectícia Jorge
Quase toda a população brasileira já ouviu falar em diabetes, mas poucos compreendem a real dimensão da doença. Uma pesquisa Datafolha recente revelou que apenas 10% dos brasileiros associam o diabetes a problemas nos rins ou no coração, apesar de essas complicações estarem entre as mais frequentes e graves. O desconhecimento ajuda a explicar por que tantos pacientes chegam tardiamente ao diagnóstico de doença renal crônica, muitas vezes quando as opções de tratamento já são limitadas.
O diabetes ainda é comunicado majoritariamente como uma doença do açúcar alto no sangue, quando, na prática, trata-se de uma condição que compromete progressivamente os vasos sanguíneos. Rins e coração dependem diretamente dessa rede vascular para funcionar. Quando o controle glicêmico é inadequado, a circulação vai sendo lesionada aos poucos, especialmente nos filtros dos rins, responsáveis por limpar o sangue. Como esse processo não provoca dor nem sintomas evidentes no início, cria-se a falsa sensação de que está tudo bem.
Na rotina clínica, esse cenário é frequente. Pacientes seguem trabalhando, mantendo suas atividades diárias, enquanto os rins perdem função lentamente. Diferentemente da visão, que embaça, ou dos pés, que podem doer ou formigar, o rim não envia sinais claros de alerta. Culturalmente, as pessoas tendem a cuidar mais do que veem ou sentem, e a função renal só chama atenção quando algo muito grave acontece. Quando surgem sintomas como cansaço intenso, inchaço ou falta de ar, a doença costuma estar em estágio avançado.
Dados do Ministério da Saúde indicam que cerca de 6,7% da população adulta brasileira tem doença renal crônica, com prevalência muito maior entre idosos. Diabetes e hipertensão são os principais fatores de risco. Ainda assim, o diagnóstico poderia ocorrer bem antes, com exames simples, baratos e disponíveis no Sistema Único de Saúde (SUS), como a dosagem de creatinina no sangue e a pesquisa de albumina na urina, capazes de identificar lesão renal precoce.
A dificuldade não está na falta de exames, mas na forma como o cuidado é organizado. O diabetes ainda é tratado de maneira fragmentada, sem a vigilância contínua dos chamados órgãos-alvo, como rins e coração. No sistema público, além de desafios logísticos, faltam protocolos claros e permanentes de rastreamento e tempo nas consultas para explicar por que esses exames são necessários mesmo quando o paciente se sente saudável. Iniciativas de educação da atenção primária, conduzidas por sociedades médicas, têm buscado mudar esse cenário e ampliar a detecção precoce.
Outro equívoco comum é associar o nefrologista apenas à fase final da doença. Na realidade, o acompanhamento especializado deveria começar muito antes da diálise, quando surgem sinais iniciais de perda da função renal, presença de proteína na urina ou maior dificuldade no controle da pressão e do diabetes. O cuidado precoce permite ajustes no tratamento, proteção dos rins e redução significativa do risco cardiovascular.
Nos últimos anos, houve uma mudança importante no tratamento da doença renal associada ao diabetes. Novas medicações passaram a atuar de forma integrada, protegendo simultaneamente rins e coração. Essas terapias reduzem a perda da função renal, diminuem a progressão para diálise, reduzem internações e eventos cardiovasculares, como infarto e insuficiência cardíaca. O impacto prático é mais tempo de vida com qualidade e menos sofrimento para pacientes e famílias.
Apesar desses avanços, a lacuna de informação permanece grande. A própria pesquisa Datafolha mostra que 31% das pessoas com diabetes e hipertensão nunca receberam orientações sobre prevenção de complicações. Educação em saúde, nesse contexto, não é acessório, é parte fundamental do tratamento. Traduzir a ciência em mensagens claras, orientar a alimentação de forma prática e mostrar que cuidar dos rins é cuidar do coração e da vida como um todo são passos essenciais para mudar esse panorama.
A doença renal não começa na diálise. Ela se desenvolve ao longo dos anos, muitas vezes sem chamar atenção. Reconhecê-la cedo pode interromper sua progressão, evitar complicações graves e salvar vidas. A informação continua sendo uma das ferramentas mais eficazes para proteger rins, coração e o futuro de milhões de brasileiros.
*Lectícia Jorge é Nefrologista e Diretora Médica da Fresenius Medical Care.

