Desertos médicos mostram limites do modelo tradicional
Por Rafael Figueroa
Ignorar os desertos médicos no Brasil é insistir em um modelo que já se mostrou insuficiente. A assistência centrada na presença física do profissional, em hospitais e na concentração de especialistas nos grandes centros, não consegue atender um país continental e desigual. O desafio não é apenas formar mais médicos, mas reorganizar a forma como o cuidado chega às pessoas, combinando atenção primária fortalecida e tecnologia aplicada de forma responsável.
Os números mais recentes confirmam que a desigualdade territorial na saúde permanece estrutural. Segundo a Demografia Médica no Brasil 2025, lançada em abril pela Associação Médica Brasileira (AMB), pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) e pelo Ministério da Saúde, as projeções indicam avanços discretos, ainda insuficientes para equilibrar a distribuição regional. O Maranhão deve registrar cerca de 2,43 médicos por mil habitantes, o Pará 2,56 e o Amapá 2,76, todos abaixo da média nacional de aproximadamente 3 profissionais por mil habitantes. Enquanto isso, estados como São Paulo e o Distrito Federal concentram os maiores contingentes, mantendo a distância histórica entre Sul e Sudeste e Norte e Nordeste.
No plano global, a Organização Mundial da Saúde (OMS) estima um déficit de pelo menos 10 milhões de profissionais de saúde até 2030. Corrigir essa lacuna poderia evitar 189 milhões de mortes prematuras e gerar impacto econômico de US$ 1,1 trilhão. Para o Brasil, com suas assimetrias regionais, o descompasso é ainda mais grave.
Mesmo onde há estrutura formal, o acesso falha. Segundo o Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS), cerca de 34% da população brasileira – 72,7 milhões de pessoas – não têm acesso adequado à atenção básica. A cobertura integral exigiria 236,9 mil profissionais e um investimento anual de R$ 22,9 bilhões. O problema, porém, não é apenas financeiro, mas organizacional: demandas que poderiam ser resolvidas na atenção primária migram para emergências e hospitais, elevando custos e piorando desfechos clínicos.
Reorganizar o modelo passa necessariamente pelo uso estratégico da tecnologia. O McKinsey Health Institute, na análise Heartbeat of Health, aponta que países com escassez de profissionais de saúde, como o Brasil, precisam redesenhar a prestação de serviços e ampliar ferramentas digitais para liberar tempo dos profissionais. Experiências internacionais reforçam esse caminho: no Reino Unido, sistemas de documentação clínica assistida por inteligência artificial reduziram em 26% a duração das consultas sem comprometer o contato com o paciente, segundo o NHS. Na Índia, soluções de automação diminuíram em 72% o tempo gasto por médicos com anotações e codificação de procedimentos.
No interior brasileiro, telemedicina, telediagnóstico e suporte clínico remoto podem gerar resultados concretos. Um clínico geral em uma pequena cidade pode discutir casos com especialistas a quilômetros de distância, exames complexos podem ser laudados sem deslocamento do paciente, e doenças crônicas podem ser acompanhadas continuamente. A telemedicina ocupacional também se consolidou como ferramenta estratégica para empresas em regiões com pouca infraestrutura de saúde, permitindo avaliações e exames sem necessidade de deslocamento, integrando-se à rotina de diferentes setores produtivos.
Desertos médicos são mais do que vazios geográficos. São espaços onde o tempo de espera agrava doenças e a distância se traduz em desigualdade concreta. Se o Brasil deseja cumprir o princípio constitucional da universalidade do SUS, não basta multiplicar prédios e concentrar especialistas onde a infraestrutura é frágil. A virada digital na atenção primária, aliada a políticas de fixação e qualificação profissional, é uma estratégia de justiça social e eficiência sistêmica.
*Rafael Figueroa é pesquisador em tecnologias em saúde e IA e CEO da Portal Telemedicina.

