Desafios e oportunidades na implementação da IA na saúde
Por Vanessa Moraes
A Inteligência Artificial (IA) deixou de ser uma promessa distante para se tornar um elemento estratégico na transformação da saúde. Em um sistema historicamente pressionado por restrições financeiras, aumento da complexidade assistencial, escassez de profissionais e exigências regulatórias crescentes, a IA surge como um instrumento capaz de ampliar a capacidade de decisão, fortalecer a governança e apoiar a gestão dos processos de forma estruturada.
No entanto, apesar do discurso crescente sobre inovação, a adoção efetiva da IA na saúde brasileira ainda é limitada. Mais do que um desafio tecnológico, trata-se de um desafio organizacional, cultural e humano.
O cenário atual da saúde brasileira
O Brasil possui um sistema de saúde híbrido, composto pelo Sistema Único de Saúde (SUS), responsável pelo atendimento de aproximadamente 75% da população, e por um setor privado que complementa essa cobertura. Essa estrutura carrega desigualdades históricas em termos de investimento, maturidade digital e capacidade de inovação.
De acordo com a Pesquisa TIC Saúde 2024, conduzida pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br), apenas 4% dos estabelecimentos de saúde brasileiros utilizam algum recurso de Inteligência Artificial em seus processos. Entre os profissionais de saúde, o uso também é restrito: cerca de 17% dos médicos e 16% dos enfermeiros relatam utilizar ferramentas baseadas em IA.
Já no setor privado, os índices são mais elevados. Dados da Associação Nacional de Hospitais Privados (Anahp) indicam que mais de 80% dos hospitais privados já dispõem de alguma solução de IA, ainda que 74% dessas instituições declarem não se sentir preparadas para absorver plenamente as transformações organizacionais que a tecnologia exige.
Esses números revelam um paradoxo: a tecnologia começa a entrar nas organizações, mas a inteligência organizacional necessária para sustentá-la ainda não acompanha o mesmo ritmo.
Fragilidades históricas ocultas nos bastidores
A realidade cotidiana das organizações de saúde no Brasil carrega fragilidades históricas de operação e dados, frequentemente ocultas sob uma rotina intensa, tensa e emocionalmente exigente para quem sustenta o funcionamento diário do sistema.
Os bastidores da saúde são marcados por decisões constantes em ambientes de alta pressão, nos quais muitas vezes a informação é incompleta, fragmentada ou sustentada por ajustes manuais. Essa fragilidade não é recente, ela foi normalizada ao longo do tempo e, em muitos casos, invisibilizada como mecanismo de sobrevivência operacional. A tentativa de informatizar esse cenário sem antes compreender sua complexidade tende a apenas digitalizar ineficiências, transferindo problemas antigos para novas plataformas.
A base da Inteligência Artificial é o dado. No entanto, grande parte das organizações de saúde ainda opera com ecossistemas de informação que não se comunicam, comprometendo a visão integral da operação e a coerência da tomada de decisão.
Quando a IA é implementada sobre dados inconsistentes, desconectados ou pouco confiáveis, seu potencial se reduz drasticamente. O resultado não é inteligência, mas ruído. Antes de algoritmos avançados, a saúde precisa enfrentar um passo fundamental: estruturar sua consciência organizacional por meio de processos claros, dados íntegros e governança consistente.
Outro ponto crítico está na forma como muitas iniciativas de IA são conduzidas. Na prática, observa-se um padrão recorrente:
- Implantações lideradas por especialistas com forte domínio técnico, mas sem visão estratégica do negócio.
- Propostas baseadas em modelos conceituais ou prompts genéricos, que não consideram a diversidade, a maturidade e as políticas internas de cada organização de saúde.
- Aquisição de soluções prontas, com promessa de “plug and play”, que posteriormente demandam customizações complexas, elevando custos, prazos e frustrações.
Nesses casos, a tecnologia existe, mas não se converte em inteligência organizacional. O investimento, inicialmente percebido como pequeno, cresce de forma descontrolada, enquanto a expectativa de resultado se dissolve.
Governança e gestão assistida de processos
A verdadeira contribuição da Inteligência Artificial na saúde não está em substituir decisões humanas, mas em assistir a gestão dos processos.
Trata-se de um modelo de gestão assistida, no qual a IA amplia a capacidade de leitura da organização, conecta decisões às suas consequências e cria coerência entre estratégia, execução e resultado. Para isso, é indispensável uma estrutura clara de governança: rastreabilidade das informações, critérios de decisão bem definidos e responsabilidade organizacional compartilhada.
Sem governança, a IA amplia riscos. Com governança, ela se torna um instrumento de maturidade institucional.
Implantar IA sem clareza sobre onde ela gera valor é um dos erros mais comuns. A tecnologia precisa estar orientada para aquilo que sustenta a organização: eficiência operacional, previsibilidade, transparência, sustentabilidade financeira e desenvolvimento humano.
Quando aplicada com esse foco permite:
- Antecipar cenários e reduzir decisões reativas.
- Tornar visíveis desperdícios sistêmicos antes ocultos nos processos.
- Fortalecer a governança ao longo de toda a cadeia operacional.
- Liberar tempo das equipes para atividades que exigem julgamento, presença e sensibilidade.
O caminho sustentável: integração de saberes
A experiência prática demonstra que projetos de IA bem-sucedidos na saúde exigem uma construção coletiva, baseada em três pilares integrados:
- Visão estratégica de negócio, capaz de conectar tecnologia à sustentabilidade institucional.
- Conhecimento profundo do cotidiano operacional, trazido por quem vive os bastidores da organização.
- Competência técnica em tecnologia, com capacidade de traduzir necessidades reais em soluções escaláveis.
Essa integração permite criar soluções que respeitam o momento da organização, compreendem sua complexidade e constroem inteligência de forma progressiva e sustentável.
A Inteligência Artificial, quando aplicada com consciência organizacional, deixa de ser apenas tecnologia e passa a atuar como um instrumento vivo de governança e gestão assistida de processos.
Em um setor historicamente pressionado, sua maior contribuição não está em automatizar decisões, mas em estruturar escolhas, fortalecer processos e criar condições reais de sustentabilidade e escala.
A IA, nesse contexto, não afasta o humano, ela o sustenta.
*Vanessa Moraes é CEO Metica & Sthealth.

