Levantamento aponta os desafios e oportunidades da enfermagem no Brasil

Um levantamento completo sobre a enfermagem no Brasil apurou dados relacionados à formação, as condições de trabalho e emprego e as possibilidades de liderança do enfermeiro não apenas no âmbito dos serviços, mas também na elaboração de políticas públicas de saúde.

O estudo Fotografia da Enfermagem no Brasil integra o relatório Estado da Enfermagem no Mundo, da Organização Mundial da Saúde (OMS), e foi elaborado pelo Centro Colaborador da Organização Panamericana de Saúde/Organização Mundial da Saúde (OPAS/OMS) para o desenvolvimento da Pesquisa em Enfermagem, com sede na  Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto (EERP) da USP.

Segundo a professora Maria Helena Palucci Marziale, diretora da EERP, o estudo revelou muitas distorções que precisam ser resolvidas. Uma delas é que, apesar da graduação em enfermagem contar com mais de mil escolas no Brasil, a região Sudeste é a que mais concentra enfermeiros, com 45% do mercado de trabalho. As regiões Norte e Nordeste são as mais precárias em oportunidades de trabalho para essa mão-de-obra.

Para a diretora, isso se justifica porque a região Sudeste tem maior concentração populacional e de instituições de ensino formadoras, além de questões salariais e de condições de trabalho. “Essa situação ficou muito evidente agora, na pandemia da Covid-19, em que a escassez de profissionais de saúde na região Norte, principalmente, fez com que o Ministério da Saúde estabelecesse uma estratégia de ação chamada Brasil Conta Comigo, que contratou médicos, enfermeiros e outros profissionais de saúde para atuarem nos estados do Amazonas, Rondônia e Amapá.”

Maria Helena Palucci

O levantamento mostra que a equipe de enfermagem no Brasil configura 70% de todos os profissionais de saúde; no âmbito dessa equipe, 76% são de nível médio, técnicos e auxiliares, e 24% são ocupados por enfermeiros graduados.

Outro dado é com relação à faixa etária da força de trabalho que é relativamente jovem, com cerca de 35% dos profissionais com menos de 35 anos e 9% acima dos 55 anos. A enfermagem é uma profissão em que as mulheres predominam, com cerca de 87% dos profissionais do sexo feminino.

Maria Helena diz que o estudo possibilita a identificação de desafios da força de trabalho de enfermagem para a construção de políticas no País com a finalidade de fortalecer, inclusive, o Sistema Único de Saúde (SUS). Entre as mudanças necessárias, existe a melhoria da formação e atribuição de competências aos enfermeiros, adequação do mercado com ampliação dos postos de trabalho. “Nesta pandemia observamos a contratação em muito maior número de técnicos de enfermagem levando-se em conta a diferença salarial em relação ao enfermeiro.”

Liderança e Governança

Outra questão apontada por Maria Helena é sobre a ampliação de espaços em posição de liderança e governança. De 2018 a 2020 foi lançada pela OMS e pelo Conselho Internacional de Enfermeiros, a campanha Nursing Now, visando valorizar o trabalho do enfermeiro. Para descobrir como promover esse valorização era preciso fazer uma fotografia da enfermagem em cada país. Aqui, no Brasil, esse levantamento foi coordenado pela OPAS, e a professora Carla Aparecida Arena Ventura, da EERP, coordenadora do Centro Colaborador foi uma das participantes.

Esses dados foram coletados por meio de um grupo de trabalho liderado pela Organização Panamericana de Saúde (OPAS) no Brasil e foi composto por profissionais do Ministério da Saúde, Ministério da Educação, Conselho Federal de Enfermagem, da Associação Brasileira de Enfermagem, Associação Brasileira de Obstetrizes e Enfermeiros, do grupo de trabalho da campanha Nursing Now, além do Centro Colaborador. “Esse grupo vai continuar trabalhando para entender melhor os desafios enfrentados pela enfermagem no Brasil”, assegura Carla. (Com informações do Jornal da USP)