Como a interoperabilidade transforma o cuidado em saúde

Por Sonia Maria Castral

Enquanto a inteligência artificial (IA) generativa e analytics preditivo dominam as discussões sobre inovação na saúde, especialistas alertam que seu potencial depende de um elemento menos visível, porém estrutural: a interoperabilidade de dados clínicos.

Sem a capacidade de integrar informações entre diferentes sistemas, o avanço da IA generativa, da análise preditiva e da medicina baseada em dados permanece limitado. Hoje, hospitais, clínicas, laboratórios e operadoras de saúde operam, em grande parte, em ambientes tecnológicos fragmentados, o que dificulta o fluxo seguro e contínuo de informações

Essa fragmentação gera ineficiências sistêmicas: históricos clínicos não integrados, redundância de exames, atrasos diagnósticos e descontinuidade do cuidado com impacto direto na qualidade assistencial do paciente e no aumento dos custos

No Brasil, o Ministério da Saúde tem avançado com a Rede Nacional de Dados em Saúde (RNDS), plataforma oficial de interoperabilidade do Sistema Único de Saúde (SUS). A iniciativa permite o compartilhamento padronizado e seguro de dados clínicos entre instituições públicas e vem ampliando gradualmente sua abrangência, um passo relevante, mas que precisa ser priorizado diante da complexidade do sistema de saúde brasileiro.

Desde 2025, a RNDS iniciou a integração com a saúde suplementar, em um modelo inicial unidirecional, da rede privada para a pública, incluindo o envio retrospectivo de dados clínicos referentes ao período entre 2020 e 2025. Trata-se de um avanço, mas que ainda evidencia o quanto estamos distantes de uma interoperabilidade plena e bidirecional.

Iniciativas como o OpenCare, desenvolvido pelo InovaHC em parceria com a Abramed e o Ministério da Saúde, buscam ampliar essa conexão, integrando de forma mais abrangente a rede privada à RNDS. Em alguns círculos do setor, a proposta tem sido comparada ao “Pix da saúde”. A analogia é sedutora, mas também revela o tamanho da expectativa (e do atraso): permitir que pacientes autorizem o acesso ao próprio prontuário de forma simples e segura ainda é, no Brasil, mais visão de futuro do que realidade consolidada.

Iniciativas como o OpenCare, desenvolvido pelo InovaHC em parceria com a Abramed e o Ministério da Saúde, visam ampliar a integração entre a rede privada e a RNDS. O modelo é baseado no consentimento do paciente, permitindo o compartilhamento seguro do prontuário eletrônico entre diferentes prestadores e viabilizando o acesso e a atualização das informações de forma interoperável, independentemente da instituição de origem do atendimento.

A interoperabilidade em saúde depende da adoção de padrões internacionais consolidados como HL7 FHIR, openEHR, SNOMED CT e DICOM, que viabilizam a troca estruturada e semântica de registros clínicos, exames, imagens diagnósticas e dados administrativos entre diferentes sistemas.

O tema teve destaque internacional durante a HIMSS 2026, realizada em Las Vegas entre 9 e 12 de março. Considerada uma das principais conferências globais de tecnologia em saúde, o evento reforçou que interoperabilidade, governança de dados e infraestrutura digital são pilares essenciais para viabilizar o uso seguro e escalável de inteligência artificial no setor.

Especialistas apontam que os sistemas de saúde precisam evoluir para arquiteturas baseadas em plataformas abertas e interoperáveis, capazes de sustentar aplicações de IA, analytics clínico e modelos assistenciais orientados a valor. A pergunta que fica é: estamos, de fato, construindo essa base, ou apenas acelerando iniciativas que dependem de um alicerce que ainda não existe?

Mais do que um desafio tecnológico, a interoperabilidade se consolida como um elemento estruturante da transformação digital da saúde. Ao permitir a circulação segura, padronizada e centrada no paciente, cria a base necessária para que a inteligência artificial e outras inovações gerem valor concreto na prática clínica.

Esse avanço depende de governança consistente, adoção real, e não apenas declaratória, de padrões abertos e coordenação entre poder público, setor privado, indústria tecnológica e comunidade científica. O Brasil já iniciou esse caminho, mas a velocidade ainda não acompanha a urgência. A interoperabilidade não pode continuar sendo tratada como bastidor. Ela é, na prática, o que definirá se a transformação digital da saúde será efetiva, ou apenas mais um discurso bem-intencionado.


*Sonia Maria Castral é executiva de TI e autora do estudo ISG Provider Lens™ sobre o mercado de serviços em Saúde e ServiceNow. Executiva com mais de 40 anos de experiência em multinacionais, com atuação consolidada em produtividade, inovação e liderança de projetos e equipes. Possui forte expertise em fusões e aquisições (M&A), desinvestimentos, implementação e integração de sistemas e processos, transformação digital e gestão de mudanças nos setores farmacêutico, saúde e alimentos e bebidas (F&B). É formada em Ciência da Computação e possui MBA pela Fundação Getulio Vargas.

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