CZT na cardiologia: tecnologia redefine avaliação de risco

Por Claudio Tinoco

O avanço da cardiologia diagnóstica tem uma nova aliada: a tecnologia CZT (telureto de cádmio e zinco) aplicada à cintilografia miocárdica. O uso dessa plataforma tem redefinido a maneira como pacientes com risco cardiovascular são avaliados, especialmente aqueles assintomáticos, nos quais os métodos convencionais muitas vezes falham em captar sinais precoces da doença.

Os problemas cardiovasculares continuam sendo a principal causa de morte no mundo. Em 2022, cerca de 19,8 milhões (1) de pessoas morreram por doenças cardiovasculares, o que corresponde a aproximadamente 32% de todas as mortes globais. No Brasil, essas doenças também representam uma tragédia persistente: em 2022, foram registradas mais de 400 mil mortes por problemas cardiovasculares, o equivalente a 1.096 óbitos por dia (2).

Diferentemente da SPECT tradicional, que, por décadas, foi a principal técnica em medicina nuclear cardíaca, a CZT supera limitações importantes. Entre os ganhos, destacam-se maior sensibilidade e acurácia para isquemias subclínicas, melhor resolução espacial, menor incidência de artefatos, redução significativa da dose de radiação e do tempo de aquisição. O maior diferencial é a capacidade de avaliar a reserva de fluxo coronariano (RFC), parâmetro funcional que reflete o desempenho da microcirculação e a presença de obstruções, mesmo quando não visíveis de forma direta.

Essa possibilidade nos aproxima do desempenho do PET, com a vantagem de ser uma tecnologia mais acessível e segura. Além disso, a CZT tem se mostrado crucial em casos desafiadores, como em angina sem doença obstrutiva aparente (Inoca), doença microvascular e isquemia balanceada, que, muitas vezes, passam despercebidas pelos métodos tradicionais.

Essas nuances clínicas são particularmente importantes para pacientes diabéticos, mulheres (cuja apresentação clínica pode ser atípica), obesos e para quem apresenta doença coronariana difusa ou multivascular, em que a estratificação de risco precisa ser mais refinada. A análise da RFC, obtida com a CZT, tem se mostrado um marcador prognóstico independente, capaz de prever desfechos clínicos relevantes, como infarto, insuficiência cardíaca e morte cardiovascular, mesmo em exames com perfusão aparentemente normal.

A adoção da CZT também está trazendo impactos significativos no workflow hospitalar, otimizando a produtividade da equipe de medicina nuclear, reduzindo repetições de exames e ampliando o número de pacientes atendidos por dia. A precisão diagnóstica da CZT permite decisões terapêuticas mais assertivas, evita exames invasivos desnecessários – como a cineangiocoronariografia – e melhora o direcionamento para revascularização apenas quando realmente necessário. Isso traz ganhos clínicos e econômicos reais.

Do ponto de vista estrutural, a adoção da CZT exige investimento inicial maior e capacitação de equipes técnicas, o que ainda limita sua disseminação em larga escala. No entanto, seu potencial para gerar economia sistêmica e evitar intervenções de alto custo – como internações e procedimentos invasivos – faz com que a tecnologia seja considerada custo-efetiva a médio e longo prazos. A adoção dessa plataforma na rede pública e em centros de menor complexidade seria extremamente benéfica. Torço para que universidades públicas e centros do SUS incorporem essa tecnologia o quanto antes. Ela tem potencial para mudar vidas.

Além da aplicação clínica consolidada, a tecnologia também se projeta como um eixo estratégico de pesquisa científica. A integração da inteligência artificial integrada a essa tecnologia, deve acelerar a interpretação dos exames e reduzir a variabilidade entre observadores, por meio da análise automatizada de imagens e parâmetros quantitativos.

As próximas fronteiras incluem também estudos em populações específicas, como pacientes com insuficiência cardíaca com fração de ejeção preservada (ICFEP), além de mulheres com Inoca e indivíduos com risco cardiovascular elevado, mas sem sintomas aparentes. A cardiologia caminha para uma abordagem mais personalizada e preventiva, e a CZT é uma peça-chave nesse novo paradigma.


*Claudio Tinoco é cardiologista e coordenador do Centro de Medicina Nuclear do Hospital Pró-Cardíaco, unidade da Rede Américas. 

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