O custo invisível da verticalização e o futuro da Saúde Suplementar

Por Evandro Lima e Silva

Em 2018, quando a Hapvida abriu capital na B3, o argumento central da tese era simples e poderoso: rede própria é eficiente. Ao operar seus próprios hospitais, clínicas e laboratórios, a operadora controlaria o custo médico, padronizaria o atendimento e protegeria sua margem. Nos sete anos seguintes, o setor seguiu o roteiro. A fusão com a NotreDame Intermédica, anunciada em 2021, criou uma operadora com mais de 15 milhões de beneficiários e uma rede que, em 2025, ultrapassou 815 unidades próprias — entre hospitais, prontos-atendimentos e clínicas. As sinergias da fusão foram estimadas em R$ 1,38 bilhão de Ebitda adicional anual. A verticalização, nessa década, foi o vetor de defesa estrutural do setor.

Esse argumento ainda é verdade. Mas está incompleto.

Os números recentes do setor obrigam a um novo recorte. O lucro líquido das operadoras de planos médico-hospitalares atingiu R$ 12,9 bilhões no primeiro semestre de 2025, alta de 131,9% em relação ao mesmo período do ano anterior. A sinistralidade no quarto trimestre de 2024 ficou em 82,2%, a menor para o período desde 2018. À primeira vista, o setor parece sair da turbulência pós-pandêmica em ritmo de recuperação. Há, no entanto, um custo invisível que os balanços trimestrais não capturam — e que vai pesar nos próximos cinco anos. É o custo da rigidez.

1. Capex como peso morto em cidades médias

Construir um hospital próprio em uma cidade média brasileira é uma operação que demanda capital intensivo, ciclo de retorno longo e janela de implantação que dificilmente é inferior a 18 meses. Para uma operadora regional, o custo de oportunidade é elevado: o mesmo capital alocado em um único ativo físico poderia, em tese, financiar a entrada em cinco a oito cidades novas via parcerias com clínicas e hospitais já estabelecidos. A literatura de saúde suplementar reconhece esse trade-off, mas o setor tende a tratar a discussão como uma escolha binária entre verticalizar e terceirizar — quando, na prática, ela é gradiente. Para operadoras com base de beneficiários inferior a um milhão, especialmente as 45% do mercado que fecharam 2025 no prejuízo segundo dados publicados pela Revista Apólice, replicar o modelo vertical da Hapvida pode significar comprometer a viabilidade financeira de curto prazo para construir um ativo cujo break-even está a três anos de distância.

2. O risco regulatório que mudou o cálculo

O ponto mais subestimado da equação é regulatório. Em 1º de maio de 2026, entrou em vigor o novo modelo de fiscalização da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS). A Resolução Normativa 623/2024, que regula o atendimento ao beneficiário, prevê multa de R$ 30 mil por descumprimento de prazos de garantia de atendimento. Mais relevante: a Ação Planejada de Fiscalização Estruturada (APE) pode aplicar multa de até R$ 1 milhão por determinação descumprida, e a Ação Coercitiva Incidental (ACI) impõe multa diária de R$ 5 mil a R$ 12,5 mil até a regularização. Os valores nominais das penalidades estão programados para crescer 2,7 vezes até 2028 — em uma escala progressiva já definida em norma.

A consequência prática para o gestor de operadora é direta: o risco financeiro de não ter cobertura em determinada cidade × especialidade passou de aborrecimento administrativo para item de balanço. Cobertura virou ativo regulatório. E ativos regulatórios não esperam um hospital novo ficar pronto.

3. Verticalização escala para baixo. Mal.

A lógica de rede própria funciona melhor onde há densidade — onde existe escala de beneficiários para ocupar a capacidade do hospital e diluir os custos fixos. Em cidades de grande porte e em mercados com altíssima penetração da operadora, o modelo é matematicamente robusto. O problema é que ele escala mal para cidades médias e pequenas. A capacidade ociosa em uma unidade própria em uma cidade de 200 mil habitantes é destrutiva de valor: gera custo fixo sem receita correspondente. Cidades onde a operadora tem 2 mil ou 5 mil beneficiários — comuns no interior brasileiro — não comportam um pronto-atendimento próprio. Mas comportam, com folga, a presença pontual de um cardiologista, de um pediatra ou de um endocrinologista, alocado em uma clínica de terceiros já existente.

Esse é o ponto em que o ortodoxo da verticalização perde a discussão.

4. O médico como variável esquecida

Há ainda uma dimensão humana que raramente entra nos modelos financeiros das operadoras: o comportamento do médico. A geração de especialistas que conclui residência hoje tem expectativas distintas das gerações anteriores. Quer flexibilidade de carga horária, prefere transparência sobre o valor da hora ao invés do modelo de produção, valoriza autonomia clínica. O médico que aceita vínculo de plantão fixo CLT em rede vertical é uma figura cada vez mais escassa. Operadoras que ignoram essa transição vão pagar prêmios de retenção crescentes ou enfrentar gaps crônicos de cobertura — exatamente os gaps que a ANS, agora, está fiscalizando com vigor.

O que vem depois

A próxima década da saúde suplementar não será uma escolha entre verticalização e terceirização. Será uma combinação. Operadoras que sobreviverem com saúde financeira terão rede própria onde há densidade — capitais e regiões metropolitanas — e camadas de rede credenciada flexível, organizada com tecnologia, em cidades onde não há massa crítica. O futuro pertence a quem souber operar dois modelos ao mesmo tempo, sem ideologia. O custo invisível da verticalização não é o capex que aparece no balanço. É o custo de manter um modelo único onde a realidade brasileira já mostrou que a rigidez é cara.

O Brasil tem mais de 5 mil municípios. A saúde suplementar atende cerca de 50 milhões de beneficiários espalhados por boa parte deles. Nenhum balanço de operadora consegue construir hospital próprio em cada uma dessas cidades — nem deveria tentar. Reconhecer isso é o primeiro passo para uma agenda regulatória, gerencial e tecnológica que sustente o setor nos próximos 10 anos.


*Evandro Lima e Silva é fundador e CEO da Med&Co.

Damos valor à sua privacidade

Nós e os nossos parceiros armazenamos ou acedemos a informações dos dispositivos, tais como cookies, e processamos dados pessoais, tais como identificadores exclusivos e informações padrão enviadas pelos dispositivos, para as finalidades descritas abaixo. Poderá clicar para consentir o processamento por nossa parte e pela parte dos nossos parceiros para tais finalidades. Em alternativa, poderá clicar para recusar o consentimento, ou aceder a informações mais pormenorizadas e alterar as suas preferências antes de dar consentimento. As suas preferências serão aplicadas apenas a este website.

Cookies estritamente necessários

Estes cookies são necessários para que o website funcione e não podem ser desligados nos nossos sistemas. Normalmente, eles só são configurados em resposta a ações levadas a cabo por si e que correspondem a uma solicitação de serviços, tais como definir as suas preferências de privacidade, iniciar sessão ou preencher formulários. Pode configurar o seu navegador para bloquear ou alertá-lo(a) sobre esses cookies, mas algumas partes do website não funcionarão. Estes cookies não armazenam qualquer informação pessoal identificável.

Cookies de desempenho

Estes cookies permitem-nos contar visitas e fontes de tráfego, para que possamos medir e melhorar o desempenho do nosso website. Eles ajudam-nos a saber quais são as páginas mais e menos populares e a ver como os visitantes se movimentam pelo website. Todas as informações recolhidas por estes cookies são agregadas e, por conseguinte, anónimas. Se não permitir estes cookies, não saberemos quando visitou o nosso site.

Cookies de funcionalidade

Estes cookies permitem que o site forneça uma funcionalidade e personalização melhoradas. Podem ser estabelecidos por nós ou por fornecedores externos cujos serviços adicionámos às nossas páginas. Se não permitir estes cookies algumas destas funcionalidades, ou mesmo todas, podem não atuar corretamente.

Cookies de publicidade

Estes cookies podem ser estabelecidos através do nosso site pelos nossos parceiros de publicidade. Podem ser usados por essas empresas para construir um perfil sobre os seus interesses e mostrar-lhe anúncios relevantes em outros websites. Eles não armazenam diretamente informações pessoais, mas são baseados na identificação exclusiva do seu navegador e dispositivo de internet. Se não permitir estes cookies, terá menos publicidade direcionada.

Visite as nossas páginas de Políticas de privacidade e Termos e condições.

Importante: A Medicina S/A usa cookies para personalizar conteúdo e anúncios, para melhorar sua experiência em nosso site. Ao continuar, você aceitará o uso. Veja nossa Política de Privacidade.