Envelhecimento expõe déficit de cuidados paliativos no Brasil
O rápido envelhecimento da população brasileira e o aumento da incidência de doenças crônicas e degenerativas têm ampliado o debate sobre a necessidade de fortalecer os cuidados paliativos no sistema de saúde. Voltados ao controle de sintomas e à promoção do respeito à autonomia, além de oferecerem suporte emocional, social e espiritual a pacientes com doenças que ameacem a vida, esses cuidados ainda estão longe de alcançar a maioria das pessoas que deles necessitam no país.
Segundo o Atlas dos Cuidados Paliativos no Brasil, elaborado pela Academia Nacional de Cuidados Paliativos (ANCP), o país conta atualmente com cerca de 234 serviços especializados distribuídos pelo território nacional. A maior concentração está na região Sudeste, enquanto regiões como Norte e Centro-Oeste apresentam oferta significativamente menor. Desse total, 123 serviços atuam exclusivamente no Sistema Único de Saúde (SUS), e os demais funcionam de forma mista ou apenas na rede privada.
Apesar do avanço em relação às últimas décadas, especialistas avaliam que o número ainda é insuficiente para atender à demanda crescente. Estimativas internacionais indicam que milhões de brasileiros poderiam se beneficiar de cuidados paliativos a cada ano, especialmente pacientes com câncer, doenças cardiovasculares, neurológicas, pulmonares e outras condições crônicas avançadas.

Para Samanta Gaertner Mariani, médica especializada em cuidados paliativos, o principal desafio não está apenas na criação de novos serviços, mas na integração dessa abordagem desde as fases mais precoces da doença. “Os cuidados paliativos não devem ser iniciados apenas nos momentos finais de vida. Eles precisam fazer parte do cuidado desde o diagnóstico de doenças que ameacem a vida. A criação de políticas públicas é fundamental, mas o impacto real depende da qualificação dos profissionais e da integração entre atenção básica, hospitais e serviços especializados”, explica.
Outro ponto crítico é a formação profissional. Embora o tema tenha ganhado mais espaço nos últimos anos, muitas faculdades de medicina, enfermagem e outras áreas da saúde não dedicam ou dedicaram carga horária limitada ao ensino dos cuidados paliativos. Essa lacuna contribui para a escassez de profissionais preparados para oferecer esse tipo de assistência.
Além da capacitação técnica, especialistas destacam que ainda existe um desafio cultural em relação ao tema. Para Samanta Gaertner, é necessário ampliar o entendimento da sociedade sobre o verdadeiro papel dos cuidados paliativos. “O cuidado paliativo não significa desistir do tratamento. Pelo contrário: significa garantir que cada pessoa viva com o máximo possível de conforto, dignidade e autonomia, independentemente da fase da doença”, afirma.
Diante desse cenário, a expansão e a consolidação dos cuidados paliativos tendem a se tornar uma pauta cada vez mais urgente no Brasil. Com o aumento da expectativa de vida e a maior prevalência de doenças crônicas, fortalecer essa abordagem no sistema de saúde será essencial para garantir uma assistência mais humana, centrada na qualidade de vida e no respeito às escolhas dos pacientes e de suas famílias.

