A crise silenciosa da Patologia: quem vai diagnosticar o câncer?

Por Francine Hehn de Oliveira

Pouca gente sabe, mas estamos vivendo uma crise silenciosa na Medicina: a queda contínua do número de patologistas no Brasil e no mundo. Esses são os profissionais que, diante de uma lâmina de biópsia, confirmam ou afastam um diagnóstico de câncer, orientam cirurgias e definem tratamentos que podem salvar vidas.

No Brasil, a Sociedade Brasileira de Patologia alerta: temos pouco mais de 2.500 patologistas em atividade, número muito abaixo do necessário para atender a crescente demanda oncológica.

E o dado mais preocupante: 93,8% dos estudantes de Medicina afirmam não ter interesse em seguir a especialidade.

Nos Estados Unidos, entre 2007 e 2017, o número de patologistas caiu 17,5%, enquanto a carga de trabalho por profissional aumentou em mais de 40%. No Reino Unido, o cenário é semelhante, com vagas de residência não preenchidas e serviços sobrecarregados. A previsão para 2050 é sombria: se nada for feito, haverá um descompasso estrutural entre a demanda por exames e a disponibilidade de especialistas.

Entre os motivos que levam para que ninguém queira ser patologista estão:

Por que ninguém quer ser patologista?

  • Exposição tardia à especialidade: durante a graduação, a patologia aparece pouco e de forma teórica, distante da prática clínica;
  • Baixa atratividade da carreira: percepção de pouco contato com pacientes, excesso de laudos e insegurança diante do avanço da inteligência artificial;
  • Carga de trabalho crescente: mais exames, mais complexidade e prazos cada vez mais curtos;
  • Bolsa de residência congelada: no Brasil, o valor nacional está parado em R$ 4.106 desde 2022, sem qualquer diferencial para áreas críticas como a patologia.

O que pode mudar esse quadro?

Aqui entra uma oportunidade estratégica: o Ministério da Saúde e o Ministério da Educação poderiam criar um incentivo diferenciado para os residentes em Patologia, valorizando quem escolhe uma especialidade vital para o SUS. Um adicional de bolsa, auxílio moradia e acesso a programas de capacitação em patologia digital e biologia molecular fariam toda a diferença para atrair jovens médicos.

Outros países já mostraram que mentoria precoce, estágios bem estruturados e reconhecimento financeiro ajudam a reverter a evasão. No Brasil, esse movimento precisa começar agora, antes que seja tarde demais.

O risco de não agir

Sem patologistas suficientes, a consequência será clara: atraso nos diagnósticos de câncer, filas maiores no SUS e sobrecarga nos poucos serviços existentes. A luta contra o câncer depende diretamente desses profissionais invisíveis ao grande público, mas indispensáveis para salvar vidas.

É hora de trazer luz a essa crise silenciosa. Se queremos um futuro com diagnósticos rápidos e tratamentos eficazes, precisamos valorizar a patologia hoje.


*Francine Hehn de Oliveira é Médica Neuropatologista e Membro do Conselho de Administração do Instituto de Governança e Controle do Câncer (IGCC).

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