A confiança como base da decisão entre médico e paciente
Por Stevin Zung
Durante grande parte do século passado, a medicina foi construída em um modelo fortemente paternalista. O conhecimento médico era restrito, pouco acessível e concentrado quase exclusivamente nas mãos dos profissionais de saúde. O médico ocupava uma posição quase que incontestável na tomada de decisão. Alguém admirado, respeitado e, muitas vezes, percebido como inalcançável. Não por acaso, bastava muitas vezes a frase “confie em mim, eu sou médico” para encerrar qualquer discussão clínica. Até a tradicional caligrafia médica ilegível simbolizava, de certa forma, uma época em que o conhecimento permanecia restrito aos profissionais de saúde.
Mas a sociedade mudou, e a medicina mudou junto com ela.
O avanço da internet e das tecnologias digitais democratizou o acesso à informação em uma velocidade sem precedentes. Pela primeira vez, pacientes e familiares passaram a ter acesso direto a conteúdos médicos, estudos, relatos, opiniões e experiências antes restritos ao universo técnico e acadêmico. Esse movimento trouxe ganhos importantes em autonomia e conscientização. No entanto, também criou distorções. Muitas vezes, informações superficiais, descontextualizadas ou provenientes de fontes pouco confiáveis passaram a competir com o julgamento clínico. Em alguns casos, a relação médico-paciente tornou-se mais tensionada, reduzindo o espaço para escuta genuína e criando situações de desconforto, desgaste e até vulnerabilidade para alguns profissionais.
Hoje, entretanto, estamos entrando em um terceiro momento, talvez o mais maduro e mais promissor dessa relação. Nunca houve tanta informação disponível. Ao mesmo tempo, nunca foi tão difícil interpretar corretamente o que é relevante, confiável e aplicável à realidade individual de cada paciente. O excesso de informação, a multiplicidade de fontes, a velocidade das mudanças científicas e o avanço das tecnologias fizeram surgir uma nova necessidade: a busca por curadoria, contexto e segurança.
É justamente nesse cenário que o papel do médico ganha ainda mais relevância. O paciente contemporâneo não busca apenas respostas prontas. Busca alguém capaz de traduzir a complexidade, contextualizar evidências, ponderar riscos, compreender individualidades e ajudar na tomada de decisões responsáveis. O médico deixa de ser apenas o “dono da informação” e passa a ocupar um papel ainda mais sofisticado: o de tradutor da ciência e parceiro estratégico do paciente em um ambiente de alta complexidade informacional. Alguém de confiança.
Esse novo cenário exige uma evolução nossa, da própria classe médica. O conceito de decisão compartilhada torna-se central. O médico não perde protagonismo ao dividir decisões; ao contrário, fortalece sua credibilidade ao construir caminhos junto ao paciente. A confiança passa a ser a base desse modelo. Uma confiança construída não apenas pelo conhecimento técnico, mas também pela escuta, pela empatia, pela transparência e pela consistência ao longo da jornada de cuidado.
Nesse contexto, também ganha relevância a relação entre médicos e a indústria farmacêutica, que desempenha papel estratégico na geração de evidências e no avanço da medicina. Quando pautada pela ética, pela transparência, pelo rigor científico e, especialmente pelo olhar cuidadoso nas necessidades do paciente, essa relação contribui diretamente para acelerar inovação, ampliar o acesso ao conhecimento e viabilizar novas possibilidades terapêuticas.
Em um cenário de rápida evolução científica, manter-se atualizado deixou de ser apenas um diferencial competitivo para se tornar uma responsabilidade coletiva de todo o ecossistema de saúde. A educação médica continuada assume, portanto, um papel cada vez mais central na construção de decisões clínicas mais seguras, conscientes, alinhadas às melhores evidências disponíveis e também às expectativas dos pacientes.
Porque, no fim, em um mundo cada vez mais complexo, digital e repleto de informações, confiança continuará sendo um dos ativos mais valiosos da medicina.
*Stevin Zung é diretor Médico-Científico do Aché Laboratórios, doutor e mestre em Ciências da Saúde pela Faculdade de Medicina da USP e médico psiquiatra.

