Comunicação em Libras pode salvar vidas em emergências
Por José Araújo Neto
Situações de emergência médica exigem rapidez, precisão e, sobretudo, comunicação clara. Em contextos críticos, como acidentes de trânsito, cada informação fornecida pelo paciente pode ser decisiva para o diagnóstico e para a condução do atendimento. Entre janeiro e agosto de 2025, o Brasil registrou cerca de 776 mil acidentes de trânsito, com quase 14 mil mortes, segundo dados oficiais. Em cenários como esses, a comunicação não é apenas um apoio ao cuidado — ela é parte essencial dele.
No entanto, quando o paciente é surdo, essa etapa fundamental do atendimento frequentemente falha. A ausência de acessibilidade linguística nos serviços de urgência ainda representa um risco silencioso, capaz de comprometer a segurança e a qualidade da assistência prestada. A dificuldade de comunicação pode gerar erros de diagnóstico, atrasos em decisões clínicas e até falhas na identificação correta da vítima.
De acordo com o IBGE, mais de 10 milhões de brasileiros têm algum grau de surdez ou deficiência auditiva. Apesar disso, menos de 0,5% da população domina a Língua Brasileira de Sinais (Libras). Esse descompasso revela um problema estrutural: grande parte dos serviços de saúde não está preparada para atender adequadamente uma parcela significativa da população em momentos de extrema vulnerabilidade.
Imagine tentar explicar dores intensas, reações alérgicas, histórico médico ou o uso de medicamentos sem conseguir se expressar verbalmente — e sem encontrar profissionais que compreendam a linguagem de sinais. Em uma emergência, essa barreira pode significar perda de tempo, decisões baseadas em suposições e aumento do risco para o paciente.
Mais do que uma pauta de inclusão, a comunicação acessível deve ser encarada como uma questão de segurança assistencial. Informações aparentemente simples podem ser determinantes para a escolha do protocolo médico correto. Quando essas informações não chegam ao profissional de saúde, todo o processo de cuidado fica comprometido.
Avanços tecnológicos e novos modelos de atendimento têm ampliado o debate sobre acessibilidade em ambientes críticos, mostrando que é possível integrar a Libras aos fluxos de emergência sem comprometer a agilidade. Ainda assim, o desafio maior está na conscientização: reconhecer que acessibilidade linguística não é um diferencial, mas um requisito básico para um sistema de saúde mais seguro, humano e eficiente.
Garantir que pessoas surdas consigam se comunicar plenamente em atendimentos de urgência é reconhecer o direito à vida, à dignidade e ao cuidado adequado. Em muitos casos, a presença da Libras pode não apenas melhorar a experiência do paciente, mas efetivamente fazer a diferença entre a vida e a morte.
*José Araújo Neto é CEO do ICOM.

