Confiança: Brasil na nova geografia global da tecnologia médica
Por Larissa Gomes
A indústria brasileira de dispositivos médicos vem ampliando sua presença no cenário global, sustentada por inovação, regulação confiável e um histórico de qualidade reconhecido internacionalmente. Em um ambiente competitivo e sujeito a tensões comerciais e tecnológicas, o País tem conquistado espaço em mercados que valorizam segurança, rastreabilidade e consistência produtiva.
Entre janeiro e agosto de 2025, as exportações brasileiras do setor somaram US$ 761,6 milhões, um crescimento de 6,8% em relação ao mesmo período do ano anterior. O desempenho reflete a força da indústria nacional mesmo diante das novas tarifas impostas pelos Estados Unidos — principal destino das vendas brasileiras — e o avanço em outros mercados, como Europa, América Latina e Ásia.
O setor tornou-se um exemplo de como a competitividade vai além do preço. A confiança internacional no Brasil foi construída sobre bases concretas: rigor regulatório compatível com as principais autoridades sanitárias do mundo, como a Food and Drug Administration (FDA) — órgão do governo dos Estados Unidos responsável por autorizar a comercialização de produtos médicos e farmacêuticos — e o certificado CE, exigência da União Europeia que atesta o cumprimento de padrões técnicos, de segurança e desempenho. Além disso, a adoção de normas internacionais de qualidade e rastreabilidade, bem como parcerias tecnológicas com universidades, startups e centros de pesquisa, reforçam o compromisso da indústria nacional com inovação e conformidade global.
Mais do que bons números na balança comercial, o avanço reflete uma mudança de patamar. O Brasil ampliou sua presença em cadeias globais de maior complexidade, expandindo exportações em segmentos como diagnóstico, odontologia, reabilitação e equipamentos médico-hospitalares, todos com crescimento positivo em 2025. Essa evolução demonstra a capacidade da indústria de competir em mercados que exigem tecnologia, certificação e suporte técnico permanente — atributos que diferenciam os fabricantes nacionais no cenário internacional.
Esse movimento é resultado direto de políticas industriais voltadas à inovação e da cooperação entre empresas, governo e academia. Iniciativas como o Brazil Health Devices (BHD) ajudam a consolidar a presença internacional do setor, transformando a participação brasileira em feiras e missões comerciais em relações de longo prazo e novas oportunidades de negócios.
Ao mesmo tempo, a consolidação dessa presença internacional impõe novos desafios. A expansão global demanda ambiente doméstico competitivo, estabilidade tributária e estímulo contínuo à pesquisa e ao desenvolvimento tecnológico. O setor de tecnologia médica, situado na interseção entre saúde e indústria, deve ser reconhecido como vetor estratégico de desenvolvimento nacional.
O Brasil tem uma base científica consistente, tradição industrial e capacidade comprovada de atender aos mais altos padrões globais. A experiência da pandemia de covid-19 reforçou esse papel: em um momento de ruptura das cadeias globais, a indústria nacional respondeu com agilidade, ampliou a produção de equipamentos essenciais e demonstrou autonomia tecnológica. O desafio agora é transformar essa trajetória de confiança em política de Estado — capaz de consolidar a indústria de tecnologia médica como um dos pilares da reindustrialização e da inserção internacional do País.
*Larissa Gomes é gerente de Projetos e Marketing da ABIMO – Associação Brasileira da Indústria de Dispositivos Médicos.

