Células humanas em laboratório reproduzem gravidade de epilepsia rara

Uma pesquisa brasileira acaba de demonstrar que é possível reproduzir, em laboratório, a gravidade de uma doença neurológica rara usando células humanas dos próprios pacientes, sem a necessidade de testes em animais. O estudo, publicado no Journal of Neurochemistry e conduzido por cientistas do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR) e da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), utilizou neuroesferas 3D para investigar a síndrome de Dravet, uma forma grave de epilepsia genética que surge ainda na infância.

Os resultados reforçam uma mudança global na ciência biomédica: a substituição de modelos animais por abordagens mais precisas, personalizadas e éticas. Em março de 2026, o Food and Drug Administration (FDA), dos Estados Unidos, publicou uma diretriz preliminar incentivando o uso dessas novas tecnologias, conhecidas como Novas Abordagens Metodológicas (NAMs).

As NAMs reúnem tecnologias como culturas celulares humanas, organoides tridimensionais e simulações computacionais. Diferentemente dos modelos animais, essas abordagens conseguem reproduzir com maior fidelidade o funcionamento do organismo humano, além de reduzir questões éticas e acelerar o desenvolvimento de medicamentos.

No Brasil, esse movimento também avança. Desde 2025, testes em animais para cosméticos, produtos de higiene pessoal e perfumes estão proibidos, consolidando a adoção de métodos alternativos nesses setores.

Do laboratório ao paciente: células da urina viram “mini-cérebros”

No estudo, os pesquisadores coletaram células da urina de três pacientes com diferentes níveis de gravidade da síndrome de Dravet. A partir delas, criaram neuroesferas 3D, pequenos agrupamentos de células nervosas em desenvolvimento que simulam etapas iniciais da formação do cérebro humano.

Esses modelos permitiram observar, em laboratório, como a doença se manifesta em cada indivíduo, preservando características genéticas e moleculares específicas.

Marília Zaluar, coordenadora do estudo e pesquisadora do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR) e da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), explica que os cientistas utilizaram células dos próprios pacientes para gerar neuroesferas, modelos tridimensionais que reproduzem aspectos iniciais do cérebro humano: ‘Ao analisar essas estruturas, identificamos diferenças moleculares que acompanham a gravidade clínica da doença, o que ajuda a entender por que a síndrome de Dravet se manifesta de formas tão distintas e aponta caminhos para abordagens mais personalizadas’, afirma.

A gravidade clínica dos pacientes foi medida por meio da escala DANCE, que avalia cognição, comportamento, habilidades motoras e impacto na vida cotidiana. Os resultados variaram de 31% (quadro leve) a 82% (quadro grave), com um dos pacientes apresentando quociente intelectual inferior a 20.

Ao analisar as neuroesferas, os cientistas identificaram 770 proteínas com diferenças significativas entre os pacientes. O padrão observado foi claro: quanto mais grave a condição clínica, mais comprometido estava o funcionamento celular.

Nos casos mais leves, as células mostraram maior atividade em processos ligados à comunicação entre neurônios e à formação de conexões cerebrais. Já no paciente com quadro mais severo, houve sinais de baixa produção de energia e aumento de mecanismos de estresse celular, alterações diretamente associadas à progressão da doença.

Para os pesquisadores, o avanço vai além da compreensão da doença. A tecnologia pode se tornar uma ferramenta estratégica para o desenvolvimento de novos tratamentos.

Stevens Rehen, pesquisador do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR) e da UFRJ, explica que uma possível evolução dessa plataforma será a triagem de novos medicamentos: “Ao reproduzir os aspectos moleculares associados a diferentes graus da síndrome de Dravet nos modelos celulares de cada paciente, poderemos testar respostas a terapias de forma mais precisa, reduzindo o uso de animais e fortalecendo os estudos clínicos”, afirma.

A síndrome de Dravet é causada, na maioria dos casos, por mutações no gene SCN1A, essencial para a atividade elétrica dos neurônios. Além das crises epilépticas severas, a doença pode levar a déficits cognitivos, dificuldades motoras e perda de autonomia.

Por apresentar grande variação entre pacientes, é considerada um desafio para a medicina. Nesse contexto, modelos personalizados como as neuroesferas 3D representam um avanço decisivo, permitindo classificar melhor os casos e testar abordagens terapêuticas mais direcionadas.

Os resultados mostram, na prática, o potencial das Novas Abordagens Metodológicas para transformar a pesquisa biomédica. Em doenças neurológicas complexas, esses modelos permitem observar alterações celulares com um nível de detalhe dificilmente alcançado por métodos convencionais.

Mais do que ampliar o conhecimento sobre uma epilepsia rara, o estudo aponta para um novo paradigma científico, em que o uso de células humanas substitui modelos animais, tornando a pesquisa mais fiel à biologia humana, mais eficiente no desenvolvimento de terapias e mais alinhada às demandas éticas contemporâneas.

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