O que o Carnaval revela sobre a eficiência do sistema de saúde
Por Iomani Engelmann
O Carnaval não cria problemas de saúde no Brasil. Ele apenas os expõe de forma mais concentrada e impossível de ignorar. Em poucos dias, o que já funciona sob pressão o ano inteiro, seja na rede pública ou privada, passa a operar no limite, revelando gargalos antigos, fragilidades estruturais e decisões que já deveriam ter sido tomadas há muito tempo.
Historicamente, períodos sazonais sempre funcionam como amplificadores de crise no sistema de saúde. O verão traz surtos de dengue; o inverno, o aumento de doenças respiratórias; grandes eventos e feriados prolongados, como o Carnaval, mostram a dificuldade de absorver picos abruptos de demanda. Como o Carnaval acontece todos os anos, não se trata de imprevisibilidade, mas sim de preparo.
Durante a folia, hospitais lidam simultaneamente com intoxicação alcoólica, desidratação, exaustão física, crises psiquiátricas, acidentes, violência urbana e, nos dias seguintes, com a procura por atendimentos ambulatoriais relacionados a infecções sexualmente transmissíveis. O volume cresce, os casos se repetem, o tempo de resposta diminui e o risco clínico aumenta.
Os números ajudam a dimensionar o problema. No Carnaval de 2025, o Samu de Manaus registrou 475 ocorrências entre a sexta-feira e a quarta-feira de Cinzas, superando o mesmo período do ano anterior. Em Alagoas, mais de 1.500 atendimentos foram realizados nas emergências da rede estadual. Na Bahia, mesmo com reforço da estrutura, houve aumento expressivo na procura por urgência, sobretudo por complicações associadas ao consumo excessivo de álcool e ao esforço físico sob altas temperaturas.
Nada disso é exceção. É padrão.
O ponto central é que, quando a demanda explode, o que define a capacidade de resposta de um hospital não é apenas o número de profissionais ou de leitos disponíveis, mas o nível de organização da informação. Em cenários de alta pressão, hospitais que operam com sistemas fragmentados, dados dispersos e fluxos pouco integrados tendem a perder tempo e, na saúde, o tempo é um ativo crítico.
A tecnologia, nesse contexto, deixa de ser uma promessa futurista e passa a ser uma ferramenta básica de sobrevivência operacional. Sistemas integrados permitem acesso rápido ao histórico do paciente, padronização de protocolos, melhor comunicação entre equipes médicas, assistenciais e administrativas e uma gestão mais eficiente de leitos, insumos e escalas. Não resolvem tudo, mas reduzem o caos.
Pensar em transformação digital na saúde não é apenas melhorar a experiência do paciente em dias normais. É garantir que, nos dias em que tudo sai do eixo, o sistema não colapse. O Carnaval evidencia isso de forma quase didática: quando a informação não flui, o atendimento trava; quando os dados estão organizados, decisões são tomadas com mais segurança, mesmo sob estresse.
O Carnaval funciona como um retrato ampliado dos desafios estruturais do setor. É um grande teste de estresse para os hospitais. Quando informação, fluxo e recursos não estão organizados, o risco clínico aumenta. Sistemas integrados ajudam a transformar dados em decisões rápidas, o que faz toda a diferença em períodos de pico.
O que o Carnaval ensina, ano após ano, é que não dá mais para tratar tecnologia como acessório. Em um sistema que já opera no limite, eficiência não é luxo, é condição mínima para garantir segurança assistencial. E se ela é essencial nos dias mais caóticos do calendário, talvez seja hora de adotá-la como regra, não como exceção.
*Iomani Engelmann é co-CEO da Pixeon.

