Câncer: como a oncogenética está transformando a saúde
Por Cristovam Scapulatempo Neto
É impressionante pensar que pelo menos 10% de todos os casos de câncer têm origem hereditária. Estudos da American Cancer Society mostram que o rastreamento genético nesses casos pode reduzir a mortalidade em até 40% em tumores como o de mama e o colorretal. Isso deixa claro que investir em oncogenética não é opcional: é uma questão que pode salvar vidas.
É nesse ponto que a oncogenética assume um papel transformador na oncologia moderna. Ela identifica alterações genéticas que aumentam o risco de desenvolver câncer ou que influenciam na resposta ao tratamento. Isso inclui diversas mutações hereditárias, transmitidas entre as gerações do paciente e também novas mutações, ou seja aquelas que o paciente tem e que não foram herdadas dos pais. Essa distinção, aparentemente técnica, tem implicações clínicas profundas e, cada vez mais, acessíveis.
Em prevenção, ela tem se mostrado transformadora. Síndromes de predisposição hereditária, como as associadas aos genes BRCA1, BRCA2, TP53, MLH1 e MSH2, estão associados principalmente a síndromes hereditárias de predisposição ao câncer, ou seja, alterações (mutações) permitem rastreamento antecipado, diagnóstico precoce e até medidas preventivas antes do aparecimento da doença.
No tratamento, a oncogenética redefine o padrão de cuidado. A análise molecular dos tumores orienta terapias-alvo e imunoterapias mais eficazes, menos tóxicas e personalizadas. Hoje, mais de 50 tipos de câncer já contam com biomarcadores genéticos reconhecidos para guiar decisões terapêuticas, segundo o National Cancer Institute.
Essa nova forma de praticar oncologia exige integração entre patologistas, geneticistas e equipes clínicas. A ciência avança em ritmo acelerado, mas o sistema de saúde precisa acompanhar incorporando testes genéticos e moleculares de forma mais ampla, tanto na rede pública quanto na privada.
Como médico, vejo diariamente o impacto positivo de um diagnóstico genético bem interpretado. Ele muda condutas, redefine prognósticos e, muitas vezes, salva famílias inteiras.
Por isso, é urgente compreender que a oncogenética não é o futuro é o presente. Quanto antes essa cultura for incorporada à prática médica e às políticas públicas, mais vidas serão poupadas.
A medicina de precisão não é apenas sobre tecnologia, mas sobre dar a cada pessoa o tratamento que ela realmente precisa, no momento certo. E essa é, talvez, a maior vitória na luta contra o câncer.
*Cristovam Scapulatempo Neto é Diretor Médico de Patologia da Dasa Genômica.
