Avanços levam o câncer metastático à condição de doença crônica

O diagnóstico de câncer metastático não é mais interpretado como uma sentença de morte, como ocorria até pouco tempo atrás. Nessa época, a presença de metástase era associada a um prognóstico reservado, com baixa sobrevida e poucas opções terapêuticas eficazes. Graças aos avanços científicos e à incorporação de novas abordagens no tratamento oncológico, esse cenário mudou radicalmente nas duas últimas décadas. “Em muitos casos, conseguimos hoje transformar essa condição em uma doença crônica, com controle prolongado e qualidade de vida para os pacientes”, afirma o oncologista clínico Paulo Hoff, presidente da Oncologia D’Or e professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP).

O desenvolvimento de terapias sistêmicas mais modernas tem desempenhado papel central nessa mudança. Medicamentos como anticorpos monoclonais, terapias-alvo, anticorpos conjugados à quimioterapia e, mais recentemente, a imunoterapia, ampliaram as possibilidades de controle da doença. São estratégias, que permitem atuar de forma mais precisa sobre as células tumorais, muitas vezes mantendo o câncer sob controle por longos períodos — mesmo em situações em que a ressecção cirúrgica não é viável.

Crédito da imagem: www.medicinasa.com.br (proibida a reprodução sem autorização)
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“Estamos vivendo uma revolução no tratamento do câncer, com terapias cada vez mais personalizadas. Conseguimos tratar tumores com base em características moleculares específicas, o que aumenta as chances de resposta e prolonga a sobrevida”, explica Hoff. Em alguns casos, os resultados são ainda mais expressivos. Pacientes com câncer de pulmão metastático, por exemplo, podem se beneficiar de terapias direcionadas quando apresentam alterações moleculares específicas. “Há situações em que o paciente passa a conviver com o câncer de forma semelhante a outras doenças crônicas, fazendo uso de medicação e mantendo suas atividades do dia a dia”, destaca o especialista.

Os tratamentos locais também evoluíram e passaram a integrar estratégias combinadas. Um exemplo clássico é o câncer colorretal com metástase hepática. Há cerca de três décadas, essa condição era considerada praticamente incurável, com sobrevida limitada. Atualmente, quando há bom controle da doença com tratamento sistêmico, a ressecção do tumor e das metástases pode ser indicada, abrindo perspectiva real de cura para parte dos pacientes. Em contextos mais avançados, novas alternativas vêm sendo exploradas internacionalmente. Em países como França, Noruega e Estados Unidos, o transplante de fígado já é considerado em casos selecionados de pacientes com a doença controlada e sem possibilidade de ressecção, ampliando ainda mais as possibilidades terapêuticas.

Dados recentes também reforçam essa transformação no panorama da oncologia. O número de pessoas vivendo com câncer metastático tem aumentado, refletindo tanto a maior incidência quanto a ampliação da sobrevida. Estudos indicam que uma parcela significativa dos pacientes com melanoma metastático, assim como aqueles com câncer de mama e colorretal avançados, pode viver dez anos ou mais após o diagnóstico.

Outro indicador relevante é a redução consistente da mortalidade por câncer nos últimos 30 anos, com queda média entre 2% e 3% ao ano. Esse resultado é atribuído não apenas ao diagnóstico precoce, mas também à evolução dos tratamentos e à capacidade crescente de controlar a doença mesmo em estágios avançados. “Estamos avançando rapidamente. A tendência é que, no futuro próximo, tenhamos cada vez mais pacientes vivendo por longos períodos com doença controlada e um número crescente de casos de cura, mesmo em cenários metastáticos”, conclui Paulo Hoff.

Diante desse cenário, o câncer metastático passa, progressivamente, a ser encarado como uma condição crônica em muitos casos. A combinação de inovação terapêutica, abordagem multidisciplinar e acompanhamento contínuo tem permitido que pacientes vivam mais e melhor — e, cada vez mais, com perspectivas concretas de cura.

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