Brasil: entenda por que sem bioética, não há cuidado
O mundo vive um paradoxo. Em uma era marcada por avanços tecnológicos acelerados, inteligência artificial e medicina de precisão, a saúde global enfrenta um dilema silencioso: estamos evoluindo na capacidade de tratar doenças, mas não necessariamente na capacidade de cuidar de pessoas.
O ator principal – o paciente – não está no centro das decisões, não está sendo tratado com humanidade, não tem escuta ativa, não há diálogo. A grande maioria dos atendimentos são quase um monólogo, onde o paciente relata, de forma muito rápida, seus sintomas e dali em diante, quem dá as cartas é o médico. O paciente, se quiser, deve atender às regras que serão submetidas.
É neste cenário que revela um problema central: a bioética do cuidado. Mas talvez, o querido leitor, deva estar se perguntando: mas o que é bioética do cuidado? Em resumo, é a forma de pensar e praticar a saúde, colocando a pessoa no centro, ou seja, sendo tratada com respeito, escuta ativa, dignidade e decisões compartilhadas, onde o paciente tem voz ativa e participativa.
Com certeza, este desafio de colocar os cuidados centrado no paciente não é só dos brasileiros, mas de sistemas europeus, canadenses e americanos, etc.
Não há dúvidas que o Brasil conta com um dos maiores sistemas públicos de saúde do mundo – o SUS (Sistema Único de Saúde), mas faltam políticas públicas efetivas para colocar o paciente no centro do tratamento, do atendimento. Em nações europeias e no Canadá existentes sistemas públicos com forte organização, financiamento mais estável e cultura institucional de qualidade assistencial. Mas, infelizmente, todos ainda enfrentam o mesmo problema: como garantir que o cuidado permaneça no centro das decisões?
Modelos internacionais e a força institucional da bioética – Na Inglaterra, a bioética está integrada às políticas públicas de forma estruturada. Instituições como o Nuffield Council on Bioethics contribuem diretamente para a formulação de diretrizes sobre temas complexos, como decisões de fim de vida, uso de novas tecnologias e autonomia do paciente.
No NHS (Serviço de Saúde Nacional), essa base se traduz em práticas concretas: protocolos rigorosos de consentimento informado, incentivo à participação ativa do paciente e uma cultura consolidada de segurança.
Na Europa continental, países como França, Alemanha e Holanda avançaram na institucionalização da bioética por meio de legislações específicas, comitês nacionais e integração entre ética e políticas de saúde. O Canadá segue caminho semelhante, com forte ênfase na tomada de decisão compartilhada e no respeito à autonomia do paciente, além de políticas públicas voltadas ao cuidado centrado na pessoa.
Esses sistemas não são perfeitos — mas compartilham um diferencial importante: a bioética não é periférica, é estruturante.
Brasil: um sistema avançado que ainda precisa consolidar o cuidado – Nosso país apresenta um modelo admirado internacionalmente pela sua proposta universal. O SUS é, sem dúvida, uma das maiores conquistas sociais do país. No entanto, a prática cotidiana ainda revela lacunas importantes na incorporação da bioética ao cuidado. Persistem desafios como: falhas na comunicação entre profissionais e pacientes; dificuldade de efetivação do consentimento informado; desigualdade na qualidade assistencial e uma cultura ainda centrada no procedimento, e não na pessoa.
Um problema global: quando a eficiência supera o cuidado – A comparação entre Brasil, Inglaterra, Europa e Canadá revela um ponto essencial: a crise do cuidado é global. Mesmo nos sistemas mais estruturados, o avanço da tecnologia e a pressão por produtividade têm gerado um risco crescente de desumanização. A padronização excessiva, embora importante para a segurança, pode reduzir a escuta individual. A digitalização melhora processos, mas pode afastar relações. Nesse contexto, a bioética surge como elemento de equilíbrio — capaz de orientar decisões que envolvem não apenas o que é possível fazer, mas o que deve ser feito.
O cuidado como eixo do futuro da saúde – Diante do envelhecimento populacional, do aumento das doenças crônicas e da complexidade das decisões clínicas, o cuidado precisa ser reposicionado como valor central. Não basta garantir acesso, investir em tecnologia. É preciso assegurar que o cuidado seja ético, informado e centrado na pessoa.
É exatamente essa reflexão que ganha força em obras como Bioética do Cuidado em Saúde. Ao tratar o cuidado como compromisso ético — e não apenas como ato técnico —, o livro dialoga diretamente com um dos maiores desafios contemporâneos: reduzir a distância entre o sistema de saúde e a experiência real do paciente.
O futuro da saúde não será definido apenas por inovação ou financiamento, mas pelas escolhas éticas que orientam o cuidado. Por fim, a questão é universal: não se trata apenas de tratar doenças, mas de como escolhemos cuidar das pessoas.
*Aline Albuquerque é diretora do Instituto Brasileiro de Direito do Paciente.

